O mar da Praia do Cassino fica com a cor conhecida popularmente como “chocolatão” por causa da combinação entre sedimentos trazidos pela Lagoa dos Patos, a ação da Corrente das Malvinas e a proliferação de uma alga microscópica chamada Asterionellopsis glacialis, que forma grandes manchas marrons na zona de arrebentação. Não se trata de poluição: é um fenômeno natural, documentado cientificamente e característico de praticamente todo o litoral do extremo sul do Brasil.
Quem pesquisa esse tema geralmente já visitou o Cassino ou viu fotos da praia e estranhou a ausência da água azul-turquesa típica de praias tropicais, chegando a suspeitar de contaminação. Este texto explica, com base em pesquisa da própria universidade da região, por que essa cor acontece e por que ela não indica um problema ambiental.
Os dois agentes naturais por trás da cor marrom
Segundo pesquisa publicada com base em estudos do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), a ausência de transparência típica das águas do extremo sul do Brasil se deve ao aporte de matéria orgânica proveniente de dois grandes agentes naturais: os rios, que despejam toneladas de sedimento diariamente no mar, e as correntes marítimas que atuam na região, com destaque para a Corrente das Malvinas.
Esses dois fatores não agem isoladamente. Eles se combinam de forma sazonal e variável, o que explica por que a cor do mar no Cassino muda ao longo do ano e até ao longo de um mesmo dia, dependendo das condições de vento, maré e correntes no momento da observação.
O papel da Lagoa dos Patos
O primeiro fator é geográfico e direto: a Praia do Cassino fica próxima à foz da Lagoa dos Patos, o maior sistema lagunar costeiro do Brasil, que despeja continuamente água doce carregada de sedimentos finos no oceano. Esse material se mistura com a água do mar na zona costeira, alterando sua cor natural de azul para tons de marrom.
Esse processo é reforçado, em certos momentos, pela chegada de depósitos de lama fluída mais concentrados. Pesquisas com uso de drones e ondógrafos direcionais, realizadas entre 2016 e 2017 na porção central do balneário Cassino, documentaram depósitos desse tipo de lama com até 7 km de extensão ao longo da praia, formando inclusive pequenas dunas próximas à linha d’água depois da deposição.
A Corrente das Malvinas e a floração de algas
O segundo fator, menos intuitivo, é biológico. A Corrente das Malvinas, que vem do sul carregando águas frias e ricas em nutrientes, favorece a proliferação de uma alga diatomácea específica, a Asterionellopsis glacialis. Com altos níveis de matéria orgânica na água, somados a fatores como vento e incidência de luz, essa alga se multiplica e forma grandes manchas marrons justamente na zona de arrebentação, onde as ondas quebram.
Isso significa que parte da cor “achocolatada” do Cassino não vem só de sedimento inerte, mas de organismos vivos concentrados em densidade suficiente para alterar visivelmente a cor da água. É um fenômeno equivalente, em escala menor, ao que ocorre em florações de algas em outras partes do mundo, embora sem os riscos tóxicos associados a algumas florações de água doce.
Por que a cor da água muda de um dia para o outro
O detalhe que costuma surpreender quem visita o Cassino mais de uma vez é que a cor do mar não é fixa. Em dias específicos, quando as condições de vento, correntes e aporte de sedimentos são diferentes, a água pode aparecer em tons de azul ou verde, consideradas por moradores locais como os “melhores dias” de praia, tanto pela cor quanto, frequentemente, pela temperatura mais agradável associada a essas condições.
Isso reforça que a coloração marrom não é um estado permanente e uniforme da praia, mas o resultado de uma combinação de fatores ambientais que varia com o tempo. Um visitante que vá ao Cassino em dias diferentes pode, plausivelmente, ter experiências visuais bem distintas da mesma praia.
Quando a lama vira um problema pontual
Vale registrar uma distinção importante entre a cor natural do mar e episódios pontuais de acúmulo excessivo de lama, que já geraram interdições em trechos específicos da praia. Segundo professor do Instituto de Oceanografia da FURG, esse tipo de deposição intensa de lama faz parte de um processo natural observado pela primeira vez ainda em 1901, mas que, em determinados eventos, pode se acumular em volume grande o suficiente para exigir a interdição temporária de um trecho da praia, evitando a aproximação de banhistas e veículos até que o sedimento seja naturalmente redistribuído ou coberto por areia.
Isso não muda a explicação de fundo sobre a cor do mar em si, mas ajuda a diferenciar entre a coloração cotidiana da água, resultado da combinação de sedimento e algas, e episódios mais raros de acúmulo físico de lama sobre a faixa de areia, que são tratados como ocorrências específicas pela administração municipal.
A cor achocolatada do mar do Cassino, longe de ser um defeito da praia, é uma expressão direta da geografia única da região: o encontro entre um dos maiores sistemas lagunares do país e uma corrente marítima fria rica em nutrientes. Entender essa explicação científica muda a forma de olhar para o “chocolatão”: não é sujeira, é a assinatura visual de um ecossistema costeiro complexo, que também sustenta a rica vida marinha da região, das aves migratórias aos leões-marinhos que frequentam a área dos Molhes da Barra.
Perguntas frequentes
A água marrom da Praia do Cassino é poluição?
Não. A coloração é resultado de um fenômeno natural, causado pela combinação de sedimentos trazidos pela Lagoa dos Patos com a proliferação de uma alga específica favorecida pela Corrente das Malvinas, não por contaminação da água.
Por que às vezes o mar do Cassino fica azul ou verde?
A cor da água depende das condições de vento, maré e correntes marítimas no momento. Em dias com menor aporte de sedimento e menor concentração de algas, a água pode aparecer em tons de azul ou verde, geralmente associados também a temperaturas mais agradáveis.
É seguro tomar banho de mar mesmo com a água marrom?
A cor em si não indica risco à saúde, já que decorre de sedimento e algas naturais da região, e não de esgoto ou contaminação. Ainda assim, vale sempre observar orientações de guarda-vidas e avisos oficiais sobre balneabilidade antes de entrar na água.
O que é a lama que às vezes cobre trechos da Praia do Cassino?
É um depósito de sedimento fino, fenômeno natural documentado desde 1901 segundo pesquisadores da FURG. Em episódios de maior concentração, pode formar camadas espessas o suficiente para exigir interdição temporária de trechos específicos da praia.
Todas as praias do Rio Grande do Sul têm essa cor de água?
A maior parte do litoral do extremo sul do Brasil compartilha características semelhantes, por causa da influência regional da Lagoa dos Patos e da Corrente das Malvinas, o que torna esse tipo de coloração comum, embora com variações conforme a distância da foz de rios e lagoas.
