A Passarela Ecológica do Cassino é uma estrutura elevada de madeira que liga a área urbanizada do balneário à faixa de areia, construída sobre as dunas costeiras para permitir a passagem de pedestres sem pisotear a vegetação fixadora. Ela existe porque as dunas do Cassino cumprem uma função de proteção natural contra o avanço do mar e a erosão, e o trânsito direto de pessoas sobre a areia destrói essa barreira aos poucos. A passarela resolve esse conflito entre acesso e preservação sem fechar a praia a ninguém.
O problema que a passarela resolve
Quem chega pela primeira vez ao Cassino costuma reparar em duas coisas ao mesmo tempo: a extensão da praia e o cordão de dunas que separa a avenida principal da areia. Esse cordão não é decorativo. As dunas frontais seguram o vento, reduzem a velocidade da água em ressacas e sustentam uma vegetação rasteira, principalmente margaridas-da-praia e gramíneas de restinga, que só sobrevive porque ninguém passa por cima dela o tempo todo.
O problema é que o acesso mais curto do centro do balneário até o mar atravessa justamente essas dunas. Sem uma estrutura elevada, o caminho mais óbvio para qualquer banhista seria abrir uma trilha na areia, e é exatamente isso que degrada a duna: cada pisada compacta o solo, arranca raízes e cria corredores de vento que aceleram a erosão. A passarela existe para quebrar esse ciclo, oferecendo um trajeto fixo que não toca diretamente a vegetação.
Como a estrutura foi pensada
A Passarela Ecológica do Cassino é construída em madeira de eucalipto proveniente de florestas plantadas, e não de espécies nativas extraídas de mata natural. A escolha não é aleatória: o eucalipto de reflorestamento é abundante no Rio Grande do Sul, tem custo mais baixo que madeiras nativas e evita pressão sobre ecossistemas já protegidos.
O modelo construtivo é o de palafita ou trapiche, ou seja, a passarela fica suspensa sobre estacas, sem apoiar diretamente sobre a duna. Essa suspensão tem duas funções práticas. Primeiro, permite que a areia continue se movendo por baixo da estrutura, seguindo o comportamento natural do vento, sem que a passarela vire uma barreira física que altera o relevo. Segundo, deixa espaço para que a vegetação fixadora continue crescendo embaixo e ao redor dos pilares, em vez de morrer soterrada por uma base sólida.
Na prática, isso significa que a passarela funciona como um caminho suspenso no ar, não como uma calçada apoiada no chão. É esse detalhe técnico, mais do que o material usado, que faz dela uma estrutura ecológica de fato, e não apenas uma obra com esse nome no projeto.
Por que não se usa concreto ou asfalto
Uma pergunta comum de quem não é da área é por que o poder público não simplesmente pavimenta o acesso à praia com um material mais durável, como concreto. A resposta está na própria função da duna. Uma base impermeável interrompe o fluxo natural de areia, retém água de chuva de forma diferente da areia solta e cria um obstáculo rígido que o vento passa a contornar, concentrando a erosão nas bordas da estrutura em vez de distribuí-la. Uma passarela suspensa em madeira, por ser permeável e elevada, não gera esse efeito colateral.
Contexto histórico do Balneário Cassino
Para entender por que essa passarela importa tanto para o Cassino especificamente, ajuda saber o que é o balneário. O Balneário Cassino foi inaugurado oficialmente em 26 de janeiro de 1890, sob o nome de Vila Sequeira, por iniciativa de Cândido Sequeira em parceria com a Companhia de Bondes Suburbanos da Mangueira, que já explorava uma linha férrea entre Rio Grande e Bagé. É considerado o balneário marítimo mais antigo do Brasil, criado décadas antes de a maioria das praias urbanas do litoral brasileiro receber qualquer infraestrutura turística.
O nome Cassino vem do cassino de jogos que funcionou no local e que deu fama ao balneário antes de ser proibido pela legislação federal em 1946. Com o fim do jogo, a vocação turística do lugar não desapareceu, ela se transformou. O Cassino seguiu recebendo veranistas, e hoje o distrito, pertencente ao município de Rio Grande, recebe algo em torno de 150 mil turistas por temporada, segundo dados divulgados pela prefeitura.
A Praia do Cassino é reconhecida pelo Guinness Book desde 1994 como a praia contínua mais extensa do planeta, embora a medição exata varie bastante entre fontes, de pouco mais de 200 km a 254 km, dependendo do critério usado para traçar a linha de costa. Essa disputa de números não é um detalhe menor: quanto mais recortada a costa é medida, maior ela tende a ficar, um efeito conhecido como paradoxo da linha de costa. O que não muda entre as fontes é a característica que dá à praia seu uso mais peculiar, a possibilidade de dirigir sobre a areia compactada por quilômetros seguidos.
Qual é o papel da passarela dentro desse cenário
A passarela ecológica entra nesse contexto como resposta a um problema criado pelo próprio sucesso turístico do balneário. Um lugar procurado por dezenas de milhares de pessoas por temporada não pode depender de trilhas improvisadas sobre dunas frágeis sem comprometer, em poucos anos, a proteção natural que essas dunas oferecem à orla urbanizada.
Existem hoje diferentes trechos de passarela no Cassino, não uma única estrutura isolada. Um deles fica nas proximidades da Rua Bahia, outro entre as Ruas Montevidéu e Rio de Janeiro, e a Prefeitura do Rio Grande mantém, por meio da Secretaria de Município do Cassino, ações de manutenção e revitalização desses acessos conforme surgem problemas estruturais. Em 2026, por exemplo, a secretaria interditou preventivamente cerca de 60 metros da passarela próxima à Rua Bahia após identificar desgaste estrutural considerado grave, orientando os pedestres a usar o acesso alternativo entre Montevidéu e Rio de Janeiro enquanto durassem as obras.
Esse tipo de intervenção é rotina em qualquer estrutura de madeira exposta a vento salino, sol forte e alta umidade quase o ano inteiro. O detalhe que costuma passar despercebido é que a durabilidade da passarela depende diretamente da frequência da manutenção, não apenas da qualidade inicial da madeira. Uma estrutura bem construída, mas sem inspeção técnica periódica, se deteriora tão rápido quanto uma malfeita.
Diferença entre a passarela ecológica e outros projetos de acesso à praia
É comum confundir a passarela ecológica das dunas com projetos maiores de urbanização da orla, como o Ecoparque Turístico Molhes da Barra, uma proposta de requalificação que inclui deques, trilhas educativas e áreas de contemplação em torno dos Molhes da Barra, mais ao norte do balneário. São iniciativas relacionadas, ambas voltadas a equilibrar acesso público e preservação ambiental, mas com escopos diferentes. A passarela ecológica é um acesso pontual entre o centro do balneário e a praia; o Ecoparque é um projeto urbanístico mais amplo, com foco em outra área da orla, junto ao canal de acesso ao porto.
Também existe, segundo registros da imprensa local, um projeto de criação de nova passarela ao longo da Avenida Beira-Mar, ampliando a rede de acessos existente. Isso indica que a estrutura não é estática: novos trechos são planejados conforme o fluxo de visitantes e o desgaste dos acessos antigos exigem.
Vantagens e limites da solução
A passarela ecológica funciona bem para o problema que foi desenhada para resolver, mas não é uma solução perfeita nem definitiva.
Entre as vantagens, está o fato de permitir acesso direto e seguro à praia sem exigir grandes obras de engenharia, com um material renovável e um custo de manutenção relativamente previsível. A estrutura também cumpre uma função pedagógica silenciosa: ao caminhar sobre ela, o visitante enxerga a duna de cima, percebe a vegetação fixadora e associa aquele espaço a algo que precisa ser respeitado, não apenas atravessado.
O limite mais evidente é a durabilidade da madeira em ambiente costeiro. Sol, sal e umidade desgastam qualquer estrutura de madeira mais rápido do que em áreas continentais, o que exige orçamento contínuo de manutenção por parte da prefeitura. Outro limite é a capacidade de fluxo: em dias de pico de verão, uma passarela estreita pode gerar aglomeração, o que reduz a experiência tanto para quem caminha quanto para a própria conservação do trecho, já que o peso concentrado acelera o desgaste.
Isso funciona bem para o dia a dia do balneário e para temporadas de fluxo moderado, mas não resolve sozinho a pressão de picos extremos de visitação, como réveillon ou feriados prolongados, quando o volume de pessoas supera a capacidade prática de qualquer passarela única.
A Passarela Ecológica do Cassino é, ao mesmo tempo, uma solução técnica simples e um retrato de como o balneário mais antigo do Brasil tenta conciliar dois interesses que raramente convivem em paz: o fluxo constante de visitantes e a fragilidade de um sistema de dunas que protege a própria orla urbanizada. Não é uma obra grandiosa, nem pretende ser. É uma estrutura de madeira suspensa que faz o trabalho certo no lugar certo, e que só chama atenção quando falta manutenção ou quando um trecho precisa ser interditado.
Para quem visita o Cassino, o cuidado prático é simples: usar a passarela em vez de abrir caminho pela areia da duna, respeitar interdições temporárias e entender que aquele trajeto de madeira é parte da infraestrutura que mantém a praia como ela é, não um obstáculo entre o visitante e o mar.
Perguntas frequentes
O que é a Passarela Ecológica do Cassino?
É uma estrutura elevada de madeira, no modelo de palafita, construída sobre as dunas do Balneário Cassino, em Rio Grande (RS), para dar acesso à praia sem que os pedestres pisem diretamente na areia e na vegetação das dunas.
Onde fica a Passarela Ecológica do Cassino?
Existem trechos em pontos diferentes do balneário, incluindo acessos próximos à Rua Bahia e entre as Ruas Montevidéu e Rio de Janeiro. A localização exata pode variar conforme obras de manutenção ou construção de novos trechos, então vale confirmar o acesso disponível ao chegar.
De que material a passarela é feita?
Madeira de eucalipto proveniente de florestas plantadas, escolhida por ser um material renovável, mais barato que madeiras nativas e de menor impacto ambiental do que estruturas rígidas como concreto.
Por que a passarela é considerada ecológica?
Porque preserva as dunas em vez de destruí-las: por ficar suspensa sobre estacas, permite que a areia continue se movendo naturalmente por baixo dela e que a vegetação fixadora continue crescendo ao redor, funções que uma calçada de concreto interromperia.
A passarela está sempre aberta ao público?
Não necessariamente. Trechos podem ser interditados temporariamente para manutenção quando uma vistoria técnica identifica desgaste estrutural, como ocorreu em 2026 em um segmento próximo à Rua Bahia. Nesses casos, a prefeitura costuma indicar um acesso alternativo enquanto durarem as obras.
Por que as dunas do Cassino precisam ser protegidas?
Porque funcionam como barreira natural contra erosão e avanço do mar, além de sustentar uma vegetação de restinga que estabiliza a areia. Pisoteio constante compacta o solo, destrói raízes e acelera a erosão, o que reduz a proteção natural que a orla urbanizada do balneário recebe.
É permitido caminhar fora da passarela, direto sobre a duna?
Não é uma prática recomendada nem incentivada pela gestão do balneário. Caminhar fora da estrutura acelera a degradação da vegetação fixadora e compromete a função da duna, mesmo que pareça um atalho inofensivo em um único trajeto isolado.

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