Categoria: História

  • Estátua de Iemanjá na Praia do Cassino: significado e história

    Estátua de Iemanjá na Praia do Cassino: significado e história

    A estátua de Iemanjá na Praia do Cassino, em Rio Grande (RS), é uma escultura em cimento com cerca de 2,10 metros de altura e cerca de duas toneladas, feita pelo escultor rio-grandino Érico Gobbi. Instalada na desembocadura da Avenida Rio Grande, junto à orla, ela é considerada pelos praticantes do Batuque e da Umbanda na cidade o maior símbolo de fé dessas religiões, e é o ponto central da tradicional Festa de Iemanjá, celebrada todos os anos ao redor do dia 2 de fevereiro.

    Quem chega ao Cassino pela Avenida Rio Grande esbarra na estátua antes mesmo de ver o mar. Não é um monumento decorativo colocado ali por acaso: ela nasceu de um pedido popular, foi paga por assinatura da comunidade e virou, ao longo de cinco décadas, o marco físico de uma fé que durante muito tempo teve pouco espaço público reconhecido no Rio Grande do Sul. Entender a estátua exige entender também quem foi Érico Gobbi, por que ela foi colocada exatamente ali e o que representa, na prática, para quem participa da festa todos os anos.

    Onde fica a estátua e o que ela representa

    A estátua está posicionada de frente para o mar, na entrada e saída principal da Praia do Cassino, no ponto em que a Avenida Rio Grande desemboca na orla, no município de Rio Grande, extremo sul do Rio Grande do Sul. É descrita por quem cuida do local como um templo ao ar livre, um espaço de meditação e oração aberto o ano inteiro, não apenas durante a festa de fevereiro.

    A Praia do Cassino, vale registrar, é a praia contínua mais extensa do mundo, com cerca de 212 quilômetros de areia no ponto mais austral do litoral brasileiro. A estátua funciona como o marco visual da chegada a esse trecho de praia urbanizada: é o primeiro grande elemento que separa a cidade do areal.

    Iemanjá, na tradição afro-brasileira representada ali, é cultuada como a divindade das águas, protetora dos pescadores e, para muitos devotos, uma figura materna associada à vida e à fertilidade. A estátua do Cassino não é uma réplica de nenhuma imagem europeia de santa católica sincretizada. Trata-se de uma criação autoral de Gobbi, pensada especificamente para aquele trecho de praia e para aquela comunidade religiosa.

    Quem esculpiu a estátua de Iemanjá do Cassino

    A trajetória do escultor rio-grandino

    Érico Gobbi nasceu em Rio Grande em 9 de agosto de 1925 e morreu na mesma cidade em 14 de agosto de 2009. Autodidata em boa parte de sua formação prática, começou a trabalhar com escultura ainda jovem: em 1948 ajudou o escultor Matteo Tonietti a esculpir monumentos na Praça Xavier Ferreira, entre eles o Monumento à Mãe e o conjunto conhecido como “os meninos de calça curta, boné e suspensório”. Na mesma praça, assinou sozinho a Pira da Pátria.

    Ao longo da carreira, produziu mais de cem obras. Tem monumentos em Caxias do Sul, Porto Alegre, Curitiba e São Paulo, além de uma imagem de Nossa Senhora das Graças enviada aos Estados Unidos. Na Praça Tamandaré, em Rio Grande, é dele a estátua de Jesus Cristo e o florão do pedestal do monumento ao general Bento Gonçalves.

    Nenhuma dessas obras, no entanto, alcançou a visibilidade da estátua de Iemanjá. É a peça pela qual Gobbi é lembrado fora dos círculos de história local, e a que aparece em praticamente todo material turístico sobre o Cassino.

    Outras obras e o destino do acervo

    Uma das produções mais ambiciosas de Gobbi foi um monumento equestre a Rafael Pinto Bandeira, herói da retomada de Rio Grande do domínio espanhol em 1776. A escultura, com quase três metros de altura e cerca de duas toneladas, foi concluída em 1975, mas nunca chegou a ser fundida em bronze por falta de patrocínio. Ficou no ateliê do escultor até sua morte, e é apontada por reportagens locais recentes como um símbolo do descaso com a memória de Gobbi: seu centenário de nascimento, em 2025, passou praticamente despercebido na cidade, com o ateliê fechado e o acervo sem solução definitiva.

    Hoje, a preservação da galeria e das obras que ficaram sob guarda particular é responsabilidade do filho do artista, Edisom Gobbi. Já as peças em espaços públicos, caso da estátua de Iemanjá, são de responsabilidade da prefeitura do Rio Grande.

    Como e quando a estátua foi feita

    Aqui existe uma divergência entre fontes que vale registrar em vez de esconder. Um levantamento acadêmico sobre a festa aponta que a escultura foi concluída em 1971, e que, a partir daí, a população começou a arrecadar fundos para comprá-la do escultor, adquirindo-a por trinta e cinco mil cruzeiros após debates sobre onde ela deveria ficar. Já outro registro sobre a história da festa afirma que Gobbi teve a ideia da estátua observando a euforia popular durante os festejos de 1971, começou a esculpi-la em 1972 e só a concluiu em 1973, período em que a peça ficou exposta em seu próprio ateliê, atraindo visitantes de Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo antes de ser instalada na praia.

    Os dois relatos concordam em pontos centrais: a estátua foi feita em cimento, pesa em torno de duas toneladas, mede cerca de 2,10 metros de altura e foi comprada de Gobbi por assinatura popular, não encomendada nem paga pelo poder público. A diferença está apenas em quando exatamente o processo começou e terminou, provavelmente porque um relato descreve a conclusão da escultura em si e o outro, o processo de arrecadação e negociação até ela ficar pronta para instalação. Não há, nas fontes disponíveis, uma data oficial e documentada de inauguração no local atual.

    Na prática, isso significa que a estátua não chegou pronta e patrocinada por um município que já reconhecia a religião de matriz africana como parte da sua identidade oficial. Ela existe porque um grupo de devotos se cotizou para comprá-la de um artista local, num momento em que o Batuque e a Umbanda ainda enfrentavam preconceito aberto no Rio Grande do Sul.

    O significado religioso para o Batuque e a Umbanda

    Para os praticantes do Batuque e da Umbanda em Rio Grande, a estátua é descrita como o maior símbolo de fé dessas religiões na cidade. Isso não é força de expressão: ao contrário de terreiros, que são espaços privados e muitas vezes discretos por causa do racismo religioso histórico, a estátua é um monumento público, visível de qualquer ponto da orla, que existe abertamente em nome de uma divindade afro-brasileira.

    O detalhe que costuma passar despercebido por quem vê a estátua só de passagem é que ela funciona como altar permanente, não apenas durante a festa de fevereiro. Fiéis deixam oferendas, acendem velas e fazem orações no local ao longo do ano, tratando o espaço como um templo ao ar livre.

    Essa dimensão simbólica ficou ainda mais explícita nos últimos anos, quando lideranças religiosas passaram a associar a proteção de Iemanjá à defesa ambiental das águas e do litoral, ligando a fé de matriz africana a pautas de justiça climática. É uma leitura contemporânea que se soma ao significado tradicional, sem substituí-lo.

    A Festa de Iemanjá na Praia do Cassino

    Quando acontece e o que envolve

    O calendário da Festa de Iemanjá no Balneário Cassino costuma se estender de 27 de janeiro a 2 de fevereiro, data em que se celebra o Dia de Iemanjá. A programação reúne acampamento de terreiros na orla, com barracas de diferentes casas de Batuque e Umbanda oferecendo atendimento espiritual à população, além de rituais e cerimônias abertas ao público.

    O evento tem raiz na Festa de Iemanjá realizada na cidade do Rio Grande desde a década de 1960, mas a celebração específica no Balneário Cassino, com a estrutura que existe hoje ao redor da estátua, é mais recente: em 2025 foi comemorado o jubileu de ouro, os cinquenta anos da festa naquele formato, o que situa sua origem por volta de 1975, período próximo ao da instalação da própria estátua no local.

    O roteiro da procissão até a estátua

    Dois deslocamentos organizam a festa. A Caminhada de Iemanjá parte do Pórtico do Município do Rio Grande em direção ao Balneário Cassino. Já a Procissão das Casas, Ilês e Terreiros segue pela Avenida Rio Grande, passa diretamente pela estátua e termina na beira da praia, onde acontecem as entregas de oferendas e outras cerimônias de encerramento.

    Em anos de restrição sanitária, como em 2022, a organização já precisou adaptar o formato tradicional: a procissão pela avenida e os acampamentos foram suspensos, substituídos por uma carreata alternativa até a estátua, com apoio da prefeitura para orientar o trajeto e oferecer pontos de apoio com água e banheiros químicos aos fiéis que preferissem caminhar. É um exemplo de como a tradição se manteve mesmo quando o formato precisou mudar, o que diz algo sobre a centralidade da estátua nesse ritual: mesmo sem procissão completa, o ponto de chegada continuou sendo o mesmo.

    Fora do período da festa, a estátua segue recebendo visitantes, turistas e fiéis isolados, sem estrutura de acampamento ou controle de acesso especial. Quem visita o Cassino em qualquer época do ano encontra o monumento normalmente acessível, junto à orla.

    Ficha técnica da estátua

    Característica Informação
    Escultor Érico Gobbi (Rio Grande, 1925 a 2009)
    Material Cimento
    Altura Aproximadamente 2,10 metros
    Peso Aproximadamente duas toneladas
    Localização Desembocadura da Avenida Rio Grande, Praia do Cassino, Rio Grande (RS)
    Origem dos recursos Assinatura popular, cerca de trinta e cinco mil cruzeiros
    Ano de conclusão Fontes divergem: 1971 (levantamento acadêmico) ou 1973 (registro sobre a história da festa)
    Uso principal Culto permanente e ponto central da Festa de Iemanjá, em torno de 2 de fevereiro

    A estátua de Iemanjá na Praia do Cassino carrega, ao mesmo tempo, uma história de arte popular e uma história de disputa por espaço religioso. Não é apenas um ponto turístico com boa vista para o mar mais longo do Brasil. É o resultado de uma comunidade que decidiu pagar, do próprio bolso, por um símbolo público de uma fé que nem sempre teve lugar reconhecido fora dos terreiros. Visitar o local sabendo disso muda a forma de olhar para ele, esteja você lá em fevereiro, no meio da procissão, ou num dia qualquer de praia vazia.


    Perguntas frequentes

    Quem fez a estátua de Iemanjá do Cassino?

    A estátua foi esculpida pelo artista rio-grandino Érico Gobbi (1925 a 2009), autor de mais de cem obras espalhadas por Rio Grande e outras cidades brasileiras. É considerada sua peça mais conhecida.

    Em que ano a estátua foi construída?

    Depende da fonte consultada. Um levantamento acadêmico indica que ela foi concluída em 1971. Outro relato sobre a história da festa descreve que Gobbi teve a ideia em 1971, começou a esculpir em 1972 e terminou em 1973. Não há uma data de inauguração no local documentada de forma unânime.

    De que material a estátua é feita e qual o tamanho dela?

    É feita de cimento, mede cerca de 2,10 metros de altura e pesa em torno de duas toneladas.

    Onde exatamente fica a estátua na Praia do Cassino?

    Fica na desembocadura da Avenida Rio Grande, no ponto de entrada e saída principal da praia, de frente para o mar, no município de Rio Grande (RS).

    Qual é o significado da estátua para a Umbanda e o Batuque?

    É tratada como o maior símbolo de fé dessas religiões de matriz africana na cidade. Funciona como templo ao ar livre, usado para oração e oferendas durante o ano inteiro, além de ser o destino da procissão da Festa de Iemanjá.

    Quando acontece a Festa de Iemanjá no Cassino?

    A programação costuma ocorrer entre 27 de janeiro e 2 de fevereiro, data do Dia de Iemanjá. Inclui acampamento de terreiros, caminhada até o Balneário Cassino e procissão pela Avenida Rio Grande até a estátua, com entrega de oferendas na praia.

    É possível visitar a estátua fora do período da festa?

    Sim. O monumento fica acessível na orla durante todo o ano, sem estrutura especial de acampamento ou controle de acesso, e recebe tanto turistas quanto fiéis em visitas isoladas.

    A estátua do Cassino é a mesma de outras cidades brasileiras?

    Não. Existem diversas estátuas de Iemanjá pelo Brasil, cada uma com autoria e características próprias. A de Praia Grande (SP), por exemplo, tem cerca de oito metros e uma base com espelho d’água, bem diferente da peça de 2 metros em cimento feita por Érico Gobbi no Cassino.

    Quanto custou a estátua e quem pagou por ela?

    Segundo o levantamento acadêmico sobre a história da festa, a comunidade arrecadou cerca de trinta e cinco mil cruzeiros para comprar a escultura do artista, num processo de assinatura popular, não de encomenda ou financiamento público.

    A prefeitura do Rio Grande cuida da estátua?

    As obras de Érico Gobbi em espaços públicos, incluindo a estátua de Iemanjá, ficam sob responsabilidade da Prefeitura Municipal do Rio Grande. Já o acervo particular do escultor, guardado em seu antigo ateliê, é de responsabilidade da família.

  • A ferrovia que ligava Rio Grande à Praia do Cassino

    A ferrovia que ligava Rio Grande à Praia do Cassino

    Entre o fim do século XIX e boa parte do século XX, uma linha férrea ligava o centro de Rio Grande à Praia do Cassino, transportando veranistas até o balneário que hoje é o mais antigo do Brasil. A concessão para explorar esse trajeto foi outorgada em dezembro de 1885, e a Companhia Estrada de Ferro do Rio Grande à Costa do Mar formalizou o serviço em julho de 1890, mesmo ano em que o balneário, então chamado Vila Siqueira, foi oficialmente inaugurado. O trajeto seguia, a grandes traços, o caminho que hoje corresponde à Avenida Rio Grande.

    Antes do asfalto e do automóvel dominarem o acesso ao Cassino, era essa ferrovia, e antes dela um bonde puxado por mulas, que fazia a ponte entre a cidade e a praia. Entender essa história ajuda a explicar por que a Avenida Rio Grande tem o traçado que tem hoje, por que o balneário nasceu onde nasceu e como o Cassino deixou de depender de trilhos para se tornar a praia de acesso por carro que se conhece agora.

    Como surgiu a ligação ferroviária ao Cassino

    O ponto de partida dessa história é 17 de dezembro de 1885, quando a Lei nº 1.551 outorgou à Companhia Carris do Rio Grande a concessão para explorar comercialmente o futuro balneário. A ideia, inspirada em estações de banho e cura europeias como Dieppe, Deauville e Biarritz, previa não apenas hospedagem e lazer à beira-mar, mas também um sistema de transporte que permitisse aos moradores de Rio Grande chegar até lá com regularidade.

    Esse sistema veio na forma de uma linha férrea. Em julho de 1890, a Companhia Estrada de Ferro do Rio Grande à Costa do Mar formalizou a exploração do trajeto, no mesmo ano em que o balneário, batizado inicialmente de Vila Siqueira, foi inaugurado oficialmente, em 26 de janeiro. A coincidência de datas não é acaso: a viabilidade do próprio balneário dependia de existir uma forma confiável de levar visitantes até a praia.

    Do bonde puxado a mulas ao trem

    Nos primeiros tempos do balneário, o transporte entre o início da vila e a praia era feito por um bonde puxado por mulas, conforme registros da época reunidos em obras sobre a memória do Cassino. Esse detalhe costuma surpreender quem imagina que a ligação já nasceu sobre trilhos com locomotiva a vapor: a tração animal antecedeu, ainda que por pouco tempo, o transporte ferroviário propriamente dito.

    Com a consolidação da linha férrea, o trajeto passou a ser feito por trem, tornando a viagem entre o centro de Rio Grande e a praia mais rápida e previsível do que a alternativa por estrada de terra, praticamente inexistente ou precária naquele período.

    Quem controlava a linha ao longo dos anos

    A concessão do trajeto Rio Grande-Cassino trocou de mãos diversas vezes ao longo de poucas décadas, refletindo o padrão comum das ferrovias brasileiras da época, quando concessões de exploração eram compradas, vendidas e renomeadas com frequência:

    Ano Empresa responsável
    1885 Companhia Carris do Rio Grande (concessão inicial)
    1890 Companhia Estrada de Ferro do Rio Grande à Costa do Mar
    1892 Companhia Carris e Estrada de Ferro a Estrada do Mar
    1895 Companhia Viação Rio-Grandense
    1909 Coronel Augusto Cezar Leivas (arrematação em leilão público)

    Após o falecimento do Coronel Augusto Cezar Leivas, em 22 de junho de 1926, a administração do empreendimento passou à sua sobrinha, Maria José Leivas Otero, responsável por dar continuidade ao desenvolvimento do balneário nas décadas seguintes.

    O trajeto e o que resta dele hoje

    Fotografias históricas preservadas por pesquisadores locais mostram o trem da linha Rio Grande-Cassino circulando por um percurso que corresponde, em linhas gerais, ao que hoje é a Avenida Rio Grande, principal via comercial do balneário. Também existem registros de uma antiga estação ferroviária na região de Vila Siqueira, no Cassino, ponto final do trajeto vindo da cidade.

    Estação de Vila Siqueira

    Isso funciona bem como referência para quem caminha hoje pela Avenida Rio Grande sem saber que aquele mesmo espaço já foi ocupado por trilhos, décadas antes de se tornar a rua de comércio, sorveterias e bancas de artesanato que os veranistas conhecem atualmente.

    Por que a ferrovia perdeu espaço

    Não há registro amplamente disponível que aponte uma data exata de desativação da linha férrea entre Rio Grande e o Cassino. O que se sabe com mais segurança é o contexto mais amplo: a partir de 1920, o governo federal transferiu para os estados a administração das ferrovias em seus territórios, dando origem, no Rio Grande do Sul, à Viação Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS). Já em 1957, foi criada a Rede Ferroviária Federal (RFFSA), num momento em que o transporte ferroviário brasileiro já enfrentava declínio generalizado.

    O problema começa quando esse declínio nacional se cruza com a expansão do modelo rodoviário, que ganhou força sobretudo entre as décadas de 1950 e 1960, período em que estradas asfaltadas passaram a substituir trilhos como principal forma de ligação entre cidades e distritos turísticos em todo o país. O Cassino não escapou dessa tendência: hoje, o acesso entre Rio Grande e a praia é feito por duas rodovias asfaltadas, sem qualquer operação ferroviária remanescente.

     

    A imagem registra a chegada de um trem ao Balneário Cassino, já no período em que a Viação Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS) era administrada pelo Governo do Estado, portanto após 1920. Em destaque está a locomotiva nº 86, do tipo American 4-4-0, fabricada em 1908 pela Borsig, na Alemanha. A fotografia é um importante registro da época em que a ferrovia desempenhava papel fundamental no acesso ao mais antigo balneário do Brasil. Fonte: Fototeca Municipal de Rio Grande.

    Ferrovia do Cassino x Estrada de Ferro Rio Grande a Bagé

    Vale separar duas ferrovias que partiam de Rio Grande e que costumam ser confundidas por quem pesquisa o tema. Uma diferença importante: a linha até o Cassino era um ramal suburbano de curta distância, voltado especificamente ao transporte de veranistas até o balneário, enquanto a Estrada de Ferro Rio Grande a Bagé era uma ferrovia de longa distância, com propósito distinto, ligando o porto de Rio Grande ao interior do estado para escoamento de produção e transporte regional de passageiros.

    As duas linhas compartilhavam o ponto de partida na cidade de Rio Grande, mas seguiam propósitos e trajetos completamente diferentes, o que explica por que fotografias antigas da estação ferroviária de Rio Grande aparecem associadas tanto a uma quanto à outra, gerando confusão em pesquisas superficiais sobre o tema.

    Registro do trem cruzando a Avenida Rio Grande, no Balneário Cassino, em 1950. Na época, a linha férrea fazia parte da paisagem cotidiana e marcava o ritmo da vida no balneário, passando pelo coração da principal avenida. Um valioso registro histórico preservado pelo Arquivo Papareia.

    A ferrovia que ligava Rio Grande à Praia do Cassino não deixou trilhos visíveis para quem caminha hoje pela Avenida Rio Grande, mas deixou o próprio traçado da via, herdeiro direto do caminho que trens e, antes deles, bondes puxados por mulas percorriam para levar os primeiros veranistas até a praia mais antiga do Brasil. É uma história que mistura concessões trocadas, sobrenomes que ainda circulam na memória local e a lenta substituição dos trilhos pelo asfalto, um processo tão comum ao Brasil ferroviário do século XX quanto específico na forma como moldou o balneário que se conhece hoje.

    Perguntas frequentes

    Quando foi criada a ferrovia entre Rio Grande e a Praia do Cassino?

    A concessão inicial para explorar o futuro balneário foi outorgada em dezembro de 1885, mas foi em julho de 1890 que a Companhia Estrada de Ferro do Rio Grande à Costa do Mar formalizou a exploração do trajeto ferroviário, no mesmo ano da inauguração oficial do balneário.

    O trajeto era feito só de trem?

    Não. Nos primeiros anos do balneário, o transporte era feito por um bonde puxado por mulas, antes da consolidação do transporte sobre trilhos com tração ferroviária propriamente dita.

    A ferrovia do Cassino é a mesma que a Estrada de Ferro Rio Grande a Bagé?

    Não. São duas ferrovias diferentes que partiam de Rio Grande. A linha para o Cassino era um ramal suburbano voltado ao transporte de veranistas até a praia, enquanto a ferrovia para Bagé era uma linha de longa distância, ligada ao escoamento de produção e ao transporte regional pelo interior do estado.

    Quando a ferrovia do Cassino deixou de funcionar?

    Não há uma data exata amplamente documentada para o encerramento dessa linha específica. O que se sabe é que ela se enquadra no processo mais amplo de declínio das ferrovias brasileiras a partir da década de 1950, período em que rodovias asfaltadas passaram a substituir os trilhos como principal via de acesso a diversos destinos turísticos do país, incluindo o Cassino.

    Existe algum vestígio da ferrovia visível hoje na Praia do Cassino?

    Não há estrutura ferroviária remanescente visível em operação ou preservada como atração turística. O principal vestígio é indireto: o traçado da Avenida Rio Grande, que corresponde, em linhas gerais, ao caminho que a antiga linha férrea percorria entre a cidade e a praia.

  • Terminal Turístico do Cassino: a ruína que guarda um pedaço esquecido no balneário mais antigo do Brasil

    Terminal Turístico do Cassino: a ruína que guarda um pedaço esquecido no balneário mais antigo do Brasil

    O Terminal Turístico do Cassino é uma estrutura em ruínas localizada entre os Molhes da Barra e a entrada do bairro-balneário, na Praia do Cassino, em Rio Grande (RS). Funcionou como ponto de apoio para turistas que chegavam de ônibus, com vestiários, área de alimentação e acesso de ida e volta à cidade. Hoje restam poucos vestígios visíveis, entre eles uma caixa d’água abandonada a meio caminho dos molhes, e o local virou referência informal para quem caminha por aquele trecho da praia.

    Quem passa de carro ou a pé pelo caminho entre a entrada do Cassino e os Molhes da Barra provavelmente já esbarrou nessa ruína sem saber exatamente o que ela foi. Não é o naufrágio do Altair, mais famoso e mais fotografado. Não é o Hotel El Aduar, outra ruína da região que carrega uma lenda urbana equivocada sobre ter sido um cassino. É uma terceira estrutura, menos comentada, mas que ajuda a entender como o balneário recebia visitantes antes de o acesso por estrada asfaltada se tornar comum. Este texto reúne o que se sabe sobre a origem do terminal, o que ele foi de fato e por que ele costuma ser confundido com outras ruínas da região.

    O que foi o Terminal Turístico do Cassino

    O Terminal Turístico funcionava como um ponto de apoio para veranistas na época em que chegar à Praia do Cassino dependia muito mais de ônibus do que de carro particular. A estrutura contava com área de alimentação, vestiários e um sistema de acesso que levava os visitantes de ida e volta até o centro de Rio Grande, funcionando como uma espécie de porta de entrada organizada para quem desembarcava ali antes de seguir para a orla ou para os Molhes da Barra.

    Não há um registro oficial amplamente divulgado com data exata de inauguração ou desativação do terminal, o que é comum em estruturas de apoio turístico de praia construídas ao longo do século XX no Brasil: muitas delas nunca tiveram documentação histórica tratada como prioridade, e o conhecimento sobre elas sobrevive principalmente pela memória de moradores antigos e por registros informais. Isso não torna a história do terminal menos real, apenas menos precisa em termos de datas.

    Onde fica e o que ainda é possível ver

    O terreno do antigo terminal está localizado entre a entrada do bairro-balneário Cassino e os Molhes da Barra, um trecho que já era, na época, um ponto de passagem quase obrigatório para quem seguia a pé, de charrete ou depois de ônibus rumo à obra dos molhes.

    Hoje, o que resta visível para quem caminha por ali é principalmente uma caixa d’água abandonada, a meio caminho entre a entrada da praia e os molhes. Não existe sinalização turística formal indicando o que aquela estrutura representa, o que explica por que tantos visitantes passam pelo local sem entender do que se trata.

    Na prática, isso significa que encontrar o terminal exige um pouco de atenção: não é um ponto turístico estruturado, com placas e estacionamento, mas uma ruína que só faz sentido para quem já sabe o que está procurando.

    Por que o local é confundido com outras ruínas da praia

    O trecho da Praia do Cassino entre os Molhes da Barra e o caminho rumo ao Chuí concentra mais de uma ruína, e isso gera confusão constante entre turistas e até entre moradores menos atentos à história local.

    Terminal Turístico x Hotel El Aduar

    Cerca de dois quilômetros depois do naufrágio do Altair, mais ao sul, ficam as ruínas do Hotel El Aduar, uma estrutura em formato de “V” construída para servir de parada a ônibus e carros que seguiam para Santa Vitória do Palmar ou para o Chuí pela areia, quando esse ainda era o trajeto mais viável. O hotel também previa quartos para veranistas, mas o projeto perdeu sentido quando a estrada terrestre para o Chuí ficou pronta, o que levou ao abandono da estrutura por volta de 1960.

    Aqui está uma diferença importante: apesar de circular como lenda urbana em Rio Grande, o Hotel El Aduar nunca funcionou como cassino de jogos. É um erro comum, alimentado provavelmente pelo próprio nome do balneário, mas que não corresponde à função real do prédio.

    Terminal Turístico x naufrágio do Altair

    O navio Altair, encalhado na costa em 1976, é a ruína mais conhecida da Praia do Cassino e, por isso, acaba absorvendo toda a atenção de quem pesquisa sobre “ruínas no Cassino” antes de viajar. O Terminal Turístico, por ficar num trecho menos fotografado e sem o apelo visual de um navio encalhado, dificilmente aparece nos mesmos resultados de busca ou nas mesmas recomendações de roteiro.

    De onde vem o nome “Cassino” do balneário

    O nome do balneário não tem relação direta com o Terminal Turístico, mas ajuda a entender por que tantas lendas locais giram em torno da palavra “cassino” aplicada a ruínas da região. O balneário nasceu no fim do século XIX com o nome de Vila Siqueira, batizado em homenagem a Cândido Siqueira, um dos idealizadores do projeto. Com o tempo, a denominação original caiu em desuso, e o local passou a ser chamado de Cassino em razão da fama de cassinos e hotéis que existiam ali naquele período.

    O problema começa quando essa origem do nome se mistura, na memória popular, com a história de outras estruturas abandonadas da região, fazendo com que qualquer ruína próxima à praia acabe sendo chamada, erroneamente, de “cassino que nunca foi construído”. O Terminal Turístico não escapa dessa confusão, mesmo sem nunca ter tido qualquer relação com jogos de azar.

    Curiosidades sobre o Terminal Turístico

    • O acesso ao terminal fazia parte da rotina de quem dependia de ônibus para chegar à praia, numa época em que o carro particular ainda não era o meio de transporte dominante entre os veranistas.
    • O ponto de referência mais confiável para localizar o terreno hoje é a caixa d’água abandonada, visível a meio caminho entre a entrada da praia e os Molhes da Barra.
    • O terminal fica num trecho da praia que reúne, em poucos quilômetros, três estruturas abandonadas de épocas e funções diferentes: o próprio terminal, o Hotel El Aduar e o navio Altair, o que faz da região um pequeno itinerário informal de ruínas para quem gosta desse tipo de passeio.
    • Diferente do naufrágio do Altair, o Terminal Turístico não tem apelo fotográfico imediato, o que ajuda a explicar por que é bem menos citado em roteiros turísticos convencionais.

    Vale a pena visitar as ruínas hoje?

    Depende do que se busca. Para quem quer fotos marcantes e um ponto turístico já consolidado, o naufrágio do Altair costuma entregar mais em menos esforço. Para quem se interessa por história local, pela forma como o Cassino recebia visitantes antes da era do automóvel e por esse tipo de patrimônio informal que a maioria ignora, o Terminal Turístico é um ponto de parada que vale o desvio.

    Isso funciona bem para caminhadas mais longas pela praia, combinadas com a visita aos Molhes da Barra. Não funciona tão bem como programa isolado: sem contexto, a ruína é só uma caixa d’água abandonada no meio da areia.

    O Terminal Turístico do Cassino não tem a força visual do naufrágio do Altair nem o mistério mal contado do Hotel El Aduar, mas é uma peça real da forma como o balneário mais antigo do Brasil recebeu seus primeiros visitantes. Entender essa ruína, ainda que de forma incompleta, é entender um pedaço da lógica de transporte e turismo que moldou o Cassino antes da estrada asfaltada e do carro particular tomarem o lugar do ônibus e da caminhada pela areia. Quem passar por ali sabendo o que aquela caixa d’água abandonada representa vai olhar para o trecho entre a entrada da praia e os molhes de um jeito diferente.

    Perguntas frequentes

    O que foi o Terminal Turístico do Cassino?

    Foi uma estrutura de apoio turístico erguida entre a entrada do bairro-balneário Cassino e os Molhes da Barra, com vestiários, área de alimentação e sistema de transporte para turistas que chegavam de ônibus. Funcionava como ponto de organização para quem desembarcava ali antes de seguir para a praia ou para os molhes.

    Onde ficam as ruínas do Terminal Turístico hoje?

    Ficam no trajeto entre a entrada da Praia do Cassino e os Molhes da Barra. O principal vestígio visível é uma caixa d’água abandonada, localizada a meio caminho entre esses dois pontos, sem sinalização turística formal indicando o local.

    O Terminal Turístico é a mesma coisa que o Hotel El Aduar?

    Não. São duas ruínas diferentes, situadas em trechos distintos da praia. O Hotel El Aduar fica cerca de dois quilômetros depois do naufrágio do Altair, mais próximo do trajeto rumo ao Chuí, enquanto o Terminal Turístico está mais ao norte, próximo aos Molhes da Barra.

    É verdade que alguma dessas ruínas seria um cassino que nunca foi construído?

    Não há registro que sustente essa versão. No caso do Hotel El Aduar, essa é uma lenda urbana repetida em Rio Grande, mas a estrutura foi projetada como ponto de parada para veículos e hospedagem de veranistas, não como cassino de jogos. O nome “Cassino” do balneário tem origem na fama de cassinos e hotéis do fim do século XIX, sem relação direta com essas ruínas específicas.

    Vale a pena incluir o Terminal Turístico num roteiro pela Praia do Cassino?

    Vale, principalmente para quem já vai caminhar ou dirigir pelo trecho entre a entrada da praia e os Molhes da Barra. Como ponto isolado, sem outros atrativos por perto, o retorno é menor. Combinado com a visita aos molhes, o desvio até a ruína exige pouco esforço extra.

  • Ruínas do Hotel El Aduar: o mistério arquitetônico do Cassino

    Ruínas do Hotel El Aduar: o mistério arquitetônico do Cassino

    O Hotel El Aduar é uma construção abandonada e parcialmente soterrada pela areia, localizada a cerca de 170 km ao sul do centro do Balneário Cassino, próxima à faixa de dunas que se estende em direção ao Chuí. Erguido no início dos anos 1950 como parte de um projeto ambicioso de loteamento costeiro, o hotel foi abandonado por volta de 1960, vítima da falta de acesso viário e do avanço natural das dunas móveis sobre a estrutura.

    Quem pesquisa esse tema geralmente já viu fotos das ruínas nas redes sociais ou ouviu falar da construção “engolida pela areia” e quer entender a história real por trás do mistério. Este texto reúne o que documentos, jornais de época e pesquisa acadêmica confirmam sobre o Hotel El Aduar.

    Quando e por que o hotel foi construído

    O registro de posse do terreno onde o Hotel El Aduar foi erguido data de 21 de março de 1952, em nome de Pedro Lourival Costa. A construção aconteceu ao longo da década de 1950, em um período de entusiasmo com o potencial turístico da costa gaúcha, quando a região ainda era pouco acessível e atraía tanto brasileiros quanto argentinos em busca de aventura à beira-mar.

    Jornais da época documentam o clima de otimismo que envolveu o projeto. Uma matéria do Jornal Rio Grande, publicada em 25 de fevereiro de 1954, defendia investimento no turismo balneário da região, descrevendo o setor como uma “frente inesgotável de riquezas” até então abandonada, e celebrava o que chamava de um grupo de idealistas que acreditava no futuro turístico da cidade. Essa retórica ecoava, décadas depois, o mesmo espírito empreendedor que havia motivado a fundação do próprio Balneário Cassino no final do século XIX.

    O projeto de loteamento que nunca se completou

    O que poucos sabem é que o Hotel El Aduar não era um empreendimento isolado, mas parte de um projeto de loteamento costeiro extremamente ambicioso. Segundo pesquisa acadêmica de Maria Terezinha Gama Pinheiro, defendida na Universidade Federal de Santa Catarina em 1999, o terreno original tinha área total de 4.416.629 m², dividido em 4.752 lotes distribuídos por 316 quadras planejadas.

    Se tivesse sido concluído, o projeto teria se tornado o maior loteamento costeiro da região depois do próprio Balneário Cassino. A ideia por trás da iniciativa era, na prática, replicar ao longo da costa o modelo de balneário planejado que havia dado certo décadas antes, criando uma sequência de praias com nomes e identidades próprias ao longo da linha litorânea, como se fosse possível simplesmente traçar divisões na areia. O problema é que esse modelo, eficaz em praias de enseada mais protegidas, não se sustentava diante da dinâmica de dunas móveis e da exposição direta ao oceano aberto característica dessa parte do litoral gaúcho.

    Por que o hotel foi abandonado

    A combinação de fatores que selou o destino do El Aduar ficou clara ao longo da década seguinte à sua inauguração. Por volta de 1960, a Estrada do Taim, hoje uma das principais vias de acesso à região, ainda não existia, o que tornava o deslocamento até o hotel extremamente difícil, restringindo o público que conseguia efetivamente chegar até lá.

    Sem fluxo constante de hóspedes e sem consolidação fundiária adequada do entorno, o empreendimento não resistiu. Cerca de uma década após a inauguração, o Hotel El Aduar foi abandonado, e a partir daí a natureza retomou o espaço: as dunas móveis da região, que se deslocam continuamente por ação do vento, começaram a cobrir progressivamente a estrutura, processo que segue em curso até os dias atuais.

    A confusão de nome no Google Maps

    Um detalhe curioso, e que gera confusão para quem tenta localizar o ponto por conta própria, é que o Hotel El Aduar aparece identificado no Google Maps sob outro nome, “Hotel Netuno”, uma imprecisão que se popularizou ao longo do tempo, mas que não corresponde à identidade histórica documentada da construção. Pesquisas mais aprofundadas em registros de posse e em documentos de época confirmam o nome El Aduar como o correto, associado ao registro de 1952.

    Esse tipo de imprecisão é comum em construções abandonadas com décadas de existência e pouca documentação oficial acessível ao público, o que reforça a importância de fontes de pesquisa como dissertações acadêmicas e registros de posse para reconstituir a história real do local.

    O estado atual das ruínas

    A deterioração do Hotel El Aduar tem se acelerado nos últimos anos. Comparações entre registros fotográficos de diferentes períodos mostram que a estrutura visível hoje é significativamente menor do que a registrada há cerca de cinco anos, evidenciando o ritmo acelerado com que a areia e as condições climáticas da região seguem consumindo o que restou da construção.

    Ainda assim, as ruínas se tornaram um ponto de interesse para turistas e moradores da região, funcionando como um destino de exploração que mistura aventura, história e contemplação da força da natureza sobre construções humanas. O fenômeno não é exclusivo do Cassino: outras construções abandonadas pelo Brasil, como o chamado “Hotel Esqueleto” na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, e o Ariaú Amazon Towers, em Manaus, seguem trajetória parecida, transformando o fracasso original do empreendimento em atrativo turístico décadas depois.

    O Hotel El Aduar é mais do que uma curiosidade fotogênica na Praia do Cassino: é um registro físico de como a ambição imobiliária do século XX subestimou a força da dinâmica costeira do extremo sul do Brasil. O projeto que sonhava em criar o maior loteamento litorâneo da região depois do próprio Cassino terminou soterrado pela mesma areia que deveria sustentar seu sucesso turístico. Para quem visita hoje, resta uma lição sobre planejamento e convivência com a natureza que segue relevante, num litoral onde novos empreendimentos continuam avançando sobre a linha de dunas décadas depois do fracasso do El Aduar.

    Perguntas frequentes

    Onde ficam as ruínas do Hotel El Aduar?

    Ficam a cerca de 170 km ao sul do centro do Balneário Cassino, em uma área de dunas na direção do Chuí, próxima ao trajeto da Estrada do Taim.

    Quando o Hotel El Aduar foi construído?

    O registro de posse do terreno é de 21 de março de 1952, e a construção aconteceu ao longo da década de 1950, período de forte expectativa em torno do turismo balneário na região.

    Por que o Hotel El Aduar foi abandonado?

    Principalmente pela falta de acesso viário adequado, já que a Estrada do Taim ainda não existia por volta de 1960, e pelo avanço natural das dunas móveis, que progressivamente cobriram a estrutura ao longo das décadas seguintes.

    O nome “Hotel Netuno” está correto?

    Não. Essa é uma identificação popularizada em plataformas como o Google Maps, mas o nome historicamente documentado, confirmado por registros de posse e pesquisa acadêmica, é Hotel El Aduar.

    É seguro visitar as ruínas do Hotel El Aduar hoje?

    A deterioração da estrutura tem se acelerado nos últimos anos, o que exige cautela ao explorar o local. Como fica em um trecho remoto da praia, distante do centro do balneário, vale se informar sobre condições de acesso e segurança antes de planejar a visita.

  • O naufrágio dos navios na Praia do Cassino: histórias e curiosidades

    A Praia do Cassino é palco de dezenas de naufrágios documentados desde o século XVIII, sendo o mais visitado hoje o do cargueiro Altair, encalhado em 1976 e ainda parcialmente visível na areia. Segundo levantamento da Capitania dos Portos do Rio Grande do Sul, pelo menos 53 embarcações naufragaram na região entre 1776 e 2004, o que rendeu ao trecho a fama informal de cemitério de navios.

    Quem pesquisa esse tema geralmente já ouviu falar do Navio Altair e quer saber a história completa por trás dele, ou busca outras curiosidades sobre naufrágios na região. Este texto reúne o caso mais famoso, uma fraude marítima documentada e o contexto que explica por que essa faixa de litoral sempre foi tão perigosa para a navegação.

    Por que a costa do Cassino tem tantos naufrágios

    A navegação na entrada do canal que liga a Lagoa dos Patos ao Oceano Atlântico sempre foi considerada arriscada, combinação de ventos fortes e constantes, correntes marítimas intensas e um banco de areia formado pelo encontro das águas doce e salgada, que historicamente dificultou a aproximação segura de embarcações maiores.

    Segundo dados citados pela Capitania dos Portos do Rio Grande do Sul, ao menos 53 embarcações naufragaram na região entre 1776 e 2004, número que ajuda a explicar por que a faixa de praia ao redor da barra do Rio Grande é descrita informalmente como um cemitério de navios. Foi justamente a repetição de acidentes graves que impulsionou, ao longo do século XX, obras de infraestrutura como os próprios Molhes da Barra, construídos para reduzir o assoreamento do canal e tornar a entrada do porto mais segura.

    O naufrágio do Navio Altair

    O caso mais conhecido é o do cargueiro Altair, que naufragou oficialmente em 6 de junho de 1976. O navio havia partido do porto de São Pedro, na Argentina, com destino ao Rio de Janeiro e, depois, a Natal, no Rio Grande do Norte, carregando cerca de 3 mil toneladas de trigo.

    Durante o trajeto, a embarcação enfrentou tempestades intensas e ventos fortes entre o Uruguai e a costa gaúcha, o que prejudicou a visibilidade do comandante Raymundo Bacellar do Carmo. Depois que água do mar invadiu o tanque de lastro, responsável pela estabilidade do navio, e parte da área das máquinas, o comandante decidiu direcionar a embarcação para a praia mais próxima como forma de proteger a tripulação, uma decisão que, embora tenha custado o navio, evitou uma tragédia maior.

    O encalhe aconteceu às 13h30 do dia 6 de junho de 1976, na Praia do Cassino. Os 21 tripulantes foram resgatados por pescadores locais e levados a hotéis da região; segundo relatos da época, os marujos não comentaram o ocorrido com a imprensa. A empresa proprietária, Companhia Linhas Brasileiras de Navegação (Libra), avaliou que não compensava retirar o navio do local, decisão que definiu o destino do Altair como atração turística permanente.

    O que restou do Altair hoje

    Quase cinco décadas depois do naufrágio, o Altair segue na Praia do Cassino, mas em processo avançado de deterioração. O casco está majoritariamente enterrado na areia, e estruturas que ainda existiam há poucos anos já desapareceram: em 1999 havia seis lastros visíveis da embarcação no local, número que caiu para dois cerca de cinco anos atrás e hoje se reduz a apenas um.

    Especialistas consultados por veículos de imprensa preveem que o navio deve desaparecer por completo dentro de 10 a 20 anos, o que torna a visita ao Altair, na prática, uma corrida contra o tempo para quem quer ver os restos da embarcação pessoalmente antes que a ação do mar e da maresia complete o processo de destruição.

    Apesar da deterioração, o naufrágio segue como um dos pontos mais procurados da praia, tanto por curiosidade histórica quanto pelo apelo fotográfico da estrutura enferrujada contra o horizonte do Atlântico.

    O golpe do vapor Sarita

    Nem todo naufrágio da região foi acidental. Um dos episódios mais curiosos da história marítima do Cassino envolve o vapor Sarita, encalhado propositalmente em 1897 pelo marinheiro italiano Cosmo Marasciulo como parte de uma fraude para acionar o seguro da embarcação.

    O comandante aproveitou a fama de litoral perigoso da região e conduziu o navio diretamente contra a então deserta Praia do Cassino. Depois do encalhe, toda a tripulação desembarcou sem ferimentos, mas precisou caminhar por dois dias pela praia até chegar à cidade de Rio Grande, onde registrou a ocorrência. Uma investigação superficial da época, baseada apenas no depoimento do próprio comandante, atribuiu o naufrágio aos fortes ventos característicos da região, e a armadora do navio recebeu a indenização do seguro meses depois.

    O episódio deixou uma marca permanente na geografia local: no ponto exato onde o Sarita ficou encalhado, foi construído em 1952 um farol que herdou o nome da embarcação, o Farol Sarita, que até hoje sinaliza a divisão informal entre as praias do Cassino e do Hermenegildo.

    Outros naufrágios que marcaram a região

    A história de naufrágios na costa gaúcha não se resume ao Altair e ao Sarita. Registros históricos indicam que o próprio sistema de faróis da região, incluindo o Farol da Barra da Lagoa dos Patos, construído em 1820 como o primeiro farol da costa brasileira, e os faróis do Chuí, Sarita e Albardão, erguidos entre 1909 e 1949, foi resultado direto da necessidade de reduzir acidentes marítimos em um trecho historicamente hostil à navegação.

    Ainda hoje ocorrem acidentes na região, embora em menor escala do que no passado e majoritariamente envolvendo embarcações de pesca sujeitas a condições climáticas adversas ou que se arriscam em águas rasas próximas à praia.

    Os naufrágios da Praia do Cassino contam uma história que vai além do cenário fotogênico do Navio Altair: revelam um litoral historicamente hostil à navegação, capaz tanto de destruir embarcações por acidente quanto de servir de cenário para fraudes engenhosas como a do vapor Sarita. Quem visita o Altair hoje está, na prática, testemunhando os últimos anos de um marco que resistiu quase cinco décadas à força do mar, mas que, cedo ou tarde, vai desaparecer como tantos outros que vieram antes dele nessa mesma faixa de areia.

    Perguntas frequentes

    Quando o Navio Altair naufragou na Praia do Cassino?

    O naufrágio ocorreu em 6 de junho de 1976, quando o cargueiro, atingido por uma forte tempestade, foi direcionado pelo comandante até a praia para proteger a tripulação de um acidente maior no mar aberto.

    O Navio Altair ainda existe na Praia do Cassino?

    Sim, mas em processo avançado de deterioração. Boa parte do casco está enterrada na areia, e estruturas visíveis há poucos anos já desapareceram. Especialistas estimam que o navio deve desaparecer completamente dentro de 10 a 20 anos.

    O que foi o golpe do vapor Sarita?

    Foi uma fraude de seguro marítimo ocorrida em 1897, quando o comandante Cosmo Marasciulo encalhou propositalmente o navio na Praia do Cassino para que a armadora recebesse indenização pela perda da embarcação. O ponto do encalhe deu nome a um farol construído décadas depois no local.

    Quantos naufrágios já ocorreram na Praia do Cassino?

    Segundo levantamento da Capitania dos Portos do Rio Grande do Sul, foram registradas pelo menos 53 embarcações naufragadas na região entre 1776 e 2004, o que rendeu à área a fama informal de cemitério de navios.

    Por que a costa do Cassino é tão perigosa para navegação?

    A combinação de ventos fortes e constantes, correntes marítimas intensas e bancos de areia formados pelo encontro das águas da Lagoa dos Patos com o Oceano Atlântico sempre tornou a aproximação de embarcações maiores especialmente arriscada nessa região.

  • Como surgiu o Balneário Cassino, o mais antigo do Brasil?

    No extremo sul do Brasil, em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, uma experiência pioneira transformou uma faixa quase desabitada do litoral em destino de férias. O atual Balneário Cassino nasceu no final do século XIX como uma estação planejada de banhos de mar, conectada à cidade por ferrovia e inspirada nos balneários europeus e do Prata.

    Inaugurado oficialmente em 26 de janeiro de 1890, o lugar era conhecido como Villa Sequeira. Tinha hotel, chalés, restaurante, casas para troca de roupas e transporte até a praia, uma infraestrutura incomum no litoral brasileiro daquele período.

    Mas como essa vila surgiu? Quem idealizou o empreendimento? Por que os banhos de mar se tornaram atração? E como Villa Sequeira passou a se chamar Cassino? A seguir, você conhecerá a formação do balneário, o contexto social de sua criação e as transformações que ajudaram a construir uma das identidades mais marcantes do litoral gaúcho.

    O Balneário Cassino surgiu como uma estação balnear planejada pela Companhia de Bondes Suburbanos da Mangueira, ligada à Companhia Carris Urbanos do Rio Grande. O empreendimento foi inaugurado em 26 de janeiro de 1890, inicialmente com o nome de Villa Sequeira, e oferecia transporte ferroviário, hotelaria, lazer e estrutura para banhos de mar.

    Por que o Balneário Cassino foi criado?

    O Balneário Cassino foi criado para funcionar como uma estação de lazer e banhos de mar, além de ampliar o movimento de passageiros na linha de transporte administrada pelas empresas envolvidas no projeto.

    A proposta reunia interesses econômicos, imobiliários, turísticos e culturais. Ao construir uma ligação entre Rio Grande e a costa, os empreendedores criavam uma nova atração para a população e, simultaneamente, estimulavam a venda de passagens, a ocupação de terrenos e o desenvolvimento de serviços.

    Naquele período, o banho de mar começava a adquirir um significado diferente. O oceano deixava de ser visto somente como ambiente de trabalho, navegação e perigo. Influenciada por práticas europeias, parte da sociedade passou a procurar a praia por motivos de saúde, descanso, sociabilidade e entretenimento.

    O Cassino nasceu justamente nesse momento de mudança.

    Rio Grande no final do século XIX: o cenário que tornou o projeto possível

    A criação do balneário não pode ser separada da história de Rio Grande. No final do século XIX, a cidade se destacava como importante centro portuário, comercial e industrial da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul.

    O porto conectava a região a outras partes do Brasil e ao exterior. A circulação de mercadorias, trabalhadores, empresários e viajantes favorecia a introdução de novas tecnologias, hábitos de consumo e formas de lazer.

    Rio Grande também passava por um processo de modernização urbana, com:

    • ampliação dos serviços de transporte;
    • desenvolvimento de atividades industriais;
    • circulação de capitais;
    • construção de novos espaços de sociabilidade;
    • crescimento de grupos urbanos com recursos para viajar e veranear;
    • contato frequente com costumes europeus, argentinos e uruguaios.

    Nesse ambiente, a criação de uma estação balnear representava modernidade. A praia planejada funcionaria como extensão do espaço urbano, mas destinada ao descanso, aos encontros sociais e ao contato controlado com a natureza.

    A influência dos balneários europeus, argentinos e uruguaios

    O projeto da Villa Sequeira acompanhava uma tendência internacional. Durante o século XIX, diversas cidades costeiras europeias desenvolveram estações balneares com hotéis, restaurantes, casas de banho, passeios e meios de transporte próprios.

    Na região do Rio da Prata, os hábitos de veraneio também avançavam. Montevidéu e outros destinos uruguaios apareciam como referências próximas para a sociedade rio-grandina. A historiografia registra que jornais de Rio Grande acompanhavam o desenvolvimento dessas estações de banho.

    O que era uma estação balnear?

    Uma estação balnear era um núcleo planejado para receber visitantes interessados em banhos de mar, repouso e lazer. Diferentemente de uma praia usada espontaneamente, ela contava com transporte, hospedagem e regras de utilização.

    Esses lugares costumavam reunir:

    • hotéis e restaurantes;
    • chalés de veraneio;
    • cabines ou casas de banho;
    • áreas para passeios;
    • concertos e atividades sociais;
    • horários e orientações para entrar no mar;
    • transporte regular durante a temporada.

    A Villa Sequeira adaptou esse modelo internacional às condições do extremo sul brasileiro.

    Quem idealizou o Balneário Cassino?

    Antônio Cândido Sequeira é apontado como um dos principais nomes envolvidos na concepção do balneário. A denominação Villa Sequeira foi adotada em sua homenagem.

    O empreendimento, entretanto, deve ser entendido como resultado da atuação de companhias de transporte e de um grupo de investidores, e não como obra isolada de uma única pessoa.

    Em 1885, a Companhia Carris Urbanos do Rio Grande obteve o direito de explorar a criação de uma estação de banhos na costa. A execução ficou associada à Companhia de Bondes Suburbanos da Mangueira, apresentada em documentos municipais como subsidiária da Carris.

    A estratégia era coerente com os negócios da época: a empresa implantava o destino e também oferecia o meio de chegar até ele. Quanto maior o interesse pela praia, maior poderia ser a demanda pelo transporte.

    Antônio Cândido Sequeira teve papel central na idealização da estação balnear, enquanto as empresas de transporte viabilizaram a ligação com a costa, a implantação da vila e parte de sua infraestrutura.

    Sequeira ou Siqueira?

    Fontes históricas e textos contemporâneos apresentam variações na grafia. A dissertação da historiadora Rebecca Guimarães Enke utiliza “Villa Sequeira” e “Antônio Cândido Sequeira”. Algumas publicações municipais empregam “Vila Siqueira”.

    Em um conteúdo histórico, é recomendável registrar a variação e manter a forma adotada pela fonte consultada. Neste artigo, utiliza-se Villa Sequeira, grafia presente em pesquisas acadêmicas dedicadas especificamente ao tema.

    A inauguração da Villa Sequeira em 26 de janeiro de 1890

    A inauguração oficial da estação balnear e do transporte de passageiros ocorreu em 26 de janeiro de 1890. A data é reconhecida como o marco de fundação do Balneário Cassino.

    A viagem até a costa fazia parte da própria experiência. Os passageiros deixavam a área urbana de Rio Grande e percorriam uma paisagem ainda pouco ocupada até chegar à vila planejada junto ao oceano.

    Segundo pesquisas históricas, a abertura foi cercada por expectativas e enfrentou adiamentos antes de sua realização. Depois da inauguração, a Villa Sequeira passou a atrair moradores de Rio Grande e visitantes de outras localidades.

    Por que 26 de janeiro é uma data importante?

    O dia 26 de janeiro marca a abertura pública do empreendimento balnear e de sua ligação de transporte. Por isso, a data é utilizada para calcular a idade do Cassino, embora o planejamento, as concessões e as obras tenham começado anos antes.

    Em 2026, o Balneário Cassino completou 136 anos desde sua inauguração oficial.

    Como era a estrutura do primeiro balneário?

    A Villa Sequeira não surgiu apenas como um ponto para entrar no mar. Ela foi concebida como um conjunto organizado de hospedagem, circulação e lazer.

    Estudos acadêmicos descrevem uma estrutura que incluía:

    • um hotel;
    • restaurante;
    • casas geminadas;
    • chalés particulares;
    • casas ou cabines de banho;
    • abastecimento de água;
    • iluminação;
    • ruas e avenidas planejadas;
    • transporte ferroviário até a vila;
    • ligação interna em direção à praia.

    Uma pesquisa apresentada na Universidade Federal de Pelotas menciona, para a fase inicial, cerca de 40 casas geminadas, 20 chalés particulares e um hotel. Como números históricos podem variar conforme o ano, o documento ou o recorte analisado, eles devem ser apresentados com indicação de fonte e período.

    Um traçado com referências internacionais

    A organização espacial ajudava a transmitir a ideia de um destino cosmopolita. A pesquisa de Rebecca Guimarães Enke registra vias com nomes de cidades e países europeus, enquanto a avenida voltada para o mar era chamada Avenida Paris.

    Essa escolha não era apenas decorativa. Ela integrava uma linguagem urbana que procurava aproximar a estação balnear dos destinos internacionais admirados pelas elites daquele período.

    Tecnologia em meio às dunas

    A estação dispunha de soluções consideradas modernas para a época. Estudos sobre a vilegiatura marítima no Rio Grande do Sul mencionam o uso de um mecanismo eólico importado dos Estados Unidos para captar água do lençol freático.

    A presença de água, iluminação e transporte era indispensável para transformar uma área costeira distante em espaço adequado à permanência dos veranistas.

    A ferrovia foi decisiva para o surgimento do Cassino

    Sem uma ligação regular com Rio Grande, a estação balnear dificilmente teria se desenvolvido da mesma maneira. A ferrovia tornou a costa acessível e inseriu a praia na rotina de lazer da cidade.

    Resposta direta: a ferrovia foi essencial porque transportava visitantes, trabalhadores, alimentos, materiais e outros recursos até a Villa Sequeira. Ela reduziu o isolamento da costa e fez do deslocamento parte da experiência de veraneio.

    A linha passava pela região da Mangueira, razão pela qual a área costeira também apareceu em fontes antigas como Costa da Mangueira.

    O modelo comercial combinava transporte e turismo: as mesmas companhias interessadas no movimento de passageiros participavam da criação do destino. Essa relação entre infraestrutura e ocupação territorial é um dos aspectos mais importantes da história do Cassino.

    Como eram os primeiros banhos de mar?

    No final do século XIX, ir à praia era muito diferente da experiência contemporânea. Os banhos podiam ser orientados por recomendações médicas e submetidos a convenções rígidas de vestuário, horário e comportamento.

    Antes de se tornar símbolo de férias e bronzeamento, o banho de mar era frequentemente associado a possíveis efeitos terapêuticos. A água salgada, o ar marítimo e a mudança de ambiente eram procurados como parte de práticas de descanso e cuidado com a saúde.

    O mar como tratamento e lazer

    A crença nos benefícios do banho marítimo contribuiu para a popularização das estações balneares. Ao mesmo tempo, esses destinos passaram a funcionar como espaços de sociabilidade.

    No Cassino, os visitantes não procuravam apenas o oceano. A programação podia incluir:

    • refeições no hotel;
    • passeios pela vila;
    • encontros entre famílias;
    • concertos;
    • jogos e outras diversões;
    • temporadas em chalés;
    • participação na vida social do balneário.

    O banho era, portanto, um dos elementos de uma experiência mais ampla.

    Roupas e casas de banho

    Os trajes cobriam uma parte maior do corpo do que as roupas de banho atuais. As casas de banho ofereciam locais protegidos para troca de vestuário e ajudavam a organizar o acesso ao mar conforme as normas sociais da época.

    Esse detalhe demonstra que a praia não era vista como espaço completamente informal. Ela foi domesticada por estruturas, horários e comportamentos urbanos.

    De onde veio o nome Cassino?

    O nome Cassino deriva do Hotel Casino, estabelecimento que se tornou uma referência da antiga Villa Sequeira. Com o uso popular, a denominação do hotel passou a identificar todo o balneário.

    A palavra italiana casino podia designar uma casa de recreação ou um estabelecimento com salões destinados a jogos, encontros e diversões. O sentido histórico não deve ser reduzido à ideia contemporânea de uma casa dedicada exclusivamente a apostas.

    A pesquisa acadêmica sobre a Villa Sequeira registra que o hotel ficou conhecido como Casino por sua associação com o lazer e os jogos. Depois de algumas décadas, o balneário passou a ser chamado de Cassino, já com a grafia portuguesa usando duas letras “s”.

    O Balneário Cassino recebeu esse nome por influência do Hotel Casino, principal espaço de hospedagem, convivência e diversão da antiga Villa Sequeira. A popularidade do estabelecimento fez com que “Casino” passasse a identificar toda a localidade. Posteriormente, a palavra foi aportuguesada para “Cassino”.

    O nome tem relação com jogos de azar?

    Sim, mas com uma ressalva importante. Havia associação com jogos e entretenimento, porém o Hotel Casino funcionava dentro de uma cultura mais ampla de hospedagem e sociabilidade. Não é historicamente preciso descrevê-lo apenas como uma casa de apostas nos moldes atuais.

    A mudança de Villa Sequeira para Balneário Cassino

    A substituição do nome não aconteceu necessariamente por meio de um único ato instantâneo. Foi um processo de uso social: a referência ao Hotel Casino ganhou força até se sobrepor à denominação original.

    Essa evolução pode ser resumida assim:

    Período Denominação ou referência Significado
    Década de 1880 Costa da Mangueira Área litorânea ligada ao trajeto e à região da Mangueira
    A partir de 1890 Villa Sequeira Estação balnear batizada em homenagem a Antônio Cândido Sequeira
    Primeiras décadas do século XX Casino/Villa Sequeira Convivência entre a denominação oficial e a referência popular ao hotel
    Posteriormente Balneário Cassino Nome consolidado para a localidade
    Atualidade Cassino, Balneário Cassino ou Praia do Cassino Nomes usados para o bairro-balneário e sua faixa costeira

    A crise do empreendimento e a continuidade do balneário

    A fase inicial não foi uma trajetória linear de sucesso. A administração, os custos, a sazonalidade e as mudanças empresariais criaram dificuldades para o empreendimento.

    Documentos históricos registram que, em 1909, bens associados ao balneário foram vendidos em leilão ao coronel Augusto Cezar Leivas. A família Leivas teve participação importante na continuidade e no desenvolvimento posterior da localidade.

    Esse episódio mostra que a sobrevivência do Cassino não dependeu somente de sua inauguração. O lugar precisou atravessar mudanças de proprietários, formas de transporte e padrões de ocupação.

    Nas décadas seguintes, o balneário recebeu novas construções e loteamentos. A partir da década de 1940, a expansão imobiliária planejada ganhou maior intensidade, conforme registros municipais.

    De estação de veraneio a bairro com vida própria

    O Cassino deixou de ser apenas um destino sazonal frequentado durante o verão. Com o crescimento urbano de Rio Grande, tornou-se um bairro residencial, comercial e turístico com população permanente.

    A transformação foi favorecida por diferentes fatores:

    • expansão dos loteamentos;
    • melhoria das ligações rodoviárias;
    • substituição gradual do transporte ferroviário;
    • construção de residências permanentes;
    • crescimento do comércio e dos serviços;
    • aproximação funcional com a área urbana de Rio Grande;
    • consolidação da praia como símbolo municipal.

    Atualmente, o Cassino reúne duas identidades complementares: é um bairro onde milhares de pessoas vivem durante todo o ano e, ao mesmo tempo, um balneário que recebe visitantes, especialmente na temporada de verão.

    O Cassino é realmente o balneário mais antigo do Brasil?

    O Cassino é amplamente apresentado como o mais antigo balneário marítimo planejado do Brasil, com inauguração oficial em 1890. Essa qualificação aparece em materiais da Prefeitura do Rio Grande, documentos de planejamento municipal e pesquisas acadêmicas.

    A formulação “balneário marítimo planejado” é mais precisa do que afirmar que o Cassino foi a primeira praia frequentada ou o primeiro lugar do país onde pessoas tomaram banho de mar. Práticas marítimas anteriores certamente existiram em diferentes pontos da costa brasileira.

    O que significa “mais antigo” nesse contexto?

    A afirmação se refere à criação organizada de uma estação balnear com:

    • planejamento territorial;
    • transporte regular;
    • hospedagem;
    • infraestrutura para banhos;
    • espaços de lazer;
    • finalidade turística definida;
    • data de inauguração documentada.

    Portanto, o pioneirismo está no modelo de empreendimento balnear, não na descoberta ou no primeiro uso humano da praia.

    Para evitar exageros históricos, prefira a expressão “considerado o mais antigo balneário marítimo planejado do Brasil”. Ela preserva a relevância do Cassino e esclarece qual critério sustenta o título.

    Linha do tempo do Balneário Cassino

    Data ou período Acontecimento
    Década de 1880 Cresce a proposta de criar uma estação de banhos na costa de Rio Grande
    1885 A Companhia Carris Urbanos obtém o direito de explorar o empreendimento balnear
    26 de janeiro de 1890 Inauguração oficial da estação balnear e da ligação de passageiros
    Década de 1890 Villa Sequeira consolida hotel, chalés, casas de banho e atividades sociais
    Início do século XX Hotel Casino se torna uma referência para visitantes e moradores
    1909 Bens do empreendimento são vendidos em leilão a Augusto Cezar Leivas
    Primeiras décadas do século XX O nome Cassino passa a substituir gradualmente Villa Sequeira
    Década de 1940 em diante Expansão de loteamentos e crescimento da ocupação urbana
    Séculos XX e XXI O balneário se consolida como bairro, destino turístico e símbolo de Rio Grande

    O que ainda pode ser observado dessa história?

    Nem todos os elementos da Villa Sequeira sobreviveram de forma intacta. A ferrovia, os primeiros chalés e diversas estruturas foram modificados ou desapareceram. Mesmo assim, a formação histórica permanece legível na paisagem e na memória local.

    O visitante pode observar:

    • a ligação entre o núcleo urbano e a orla;
    • a Avenida Rio Grande como eixo estruturante;
    • edificações de diferentes períodos;
    • a tradição de veraneio;
    • nomes de ruas relacionados à formação do balneário;
    • fotografias, cartões-postais e documentos preservados em acervos;
    • a presença do Hotel Atlântico na história posterior da localidade;
    • práticas culturais transmitidas entre gerações.

    Para uma visita histórica, vale combinar um passeio pelo Cassino com pesquisas em acervos municipais, universitários e museológicos de Rio Grande.

    Praia do Cassino e Balneário Cassino são a mesma coisa?

    Os nomes são relacionados, mas não são rigorosamente idênticos.

    Balneário Cassino pode designar a área urbanizada, turística e residencial que integra o município de Rio Grande. Praia do Cassino se refere principalmente à faixa costeira diante do balneário, embora o nome também seja usado informalmente para o destino como um todo.

    Em textos turísticos, as expressões frequentemente aparecem como sinônimas. Em conteúdos geográficos, históricos ou administrativos, é melhor distinguir o bairro-balneário da praia.

    Mitos e esclarecimentos sobre a origem do Cassino

    “O Cassino nasceu como uma cidade independente”

    Não. O balneário foi implantado como estação de lazer vinculada a Rio Grande e atualmente integra o primeiro distrito do município.

    “A praia recebeu esse nome porque existia apenas uma casa de apostas”

    A explicação é incompleta. O nome está ligado ao Hotel Casino, que reunia hospedagem, refeições, jogos, concertos e convívio social. Seu papel ultrapassava o de uma casa de apostas.

    “A ferrovia já existia exclusivamente para levar banhistas”

    O projeto balnear foi articulado aos interesses das empresas de transporte e à expansão das ligações para a região da Mangueira. A mobilidade e a criação do destino se reforçavam mutuamente.

    “O título de mais antigo significa que ninguém frequentava praias antes de 1890”

    Não. O título se refere à formação documentada de um balneário marítimo planejado, dotado de transporte, hospedagem e infraestrutura turística.

    “Villa Sequeira desapareceu completamente”

    O nome perdeu o uso cotidiano, e muitas estruturas físicas mudaram. Entretanto, a Villa Sequeira permanece como fundamento histórico do atual Cassino e continua presente em documentos, pesquisas, fotografias e narrativas locais.

    Por que a história do Cassino é importante?

    A origem do Cassino ajuda a compreender como os brasileiros mudaram sua relação com o litoral. O lugar registra a passagem do mar entendido predominantemente como área de trabalho e risco para a praia concebida como ambiente de saúde, lazer, turismo e residência.

    Sua história também conecta diversos processos:

    • modernização urbana;
    • desenvolvimento dos transportes;
    • circulação internacional de costumes;
    • formação do turismo no Brasil;
    • expansão imobiliária;
    • sociabilidade das elites e das famílias urbanas;
    • transformação de um destino sazonal em bairro permanente.

    Estudar o Cassino é, portanto, estudar parte da própria história do turismo marítimo brasileiro.

    Perguntas frequentes sobre a história do Balneário Cassino

    1. Quando o Balneário Cassino foi fundado?

    O Balneário Cassino foi inaugurado oficialmente em 26 de janeiro de 1890. O planejamento começou antes, especialmente a partir da autorização concedida em 1885 para o desenvolvimento de uma estação de banhos na costa de Rio Grande. A data de 1890 marca a abertura do empreendimento e da ligação de passageiros, sendo utilizada como referência para o aniversário do balneário.

    2. Qual era o primeiro nome do Balneário Cassino?

    O primeiro nome mais conhecido foi Villa Sequeira, adotado em homenagem a Antônio Cândido Sequeira, um dos principais idealizadores da estação balnear. Antes e durante a implantação, a costa também aparecia associada à denominação Costa da Mangueira. Com a popularidade do Hotel Casino, a localidade passou a ser chamada de Casino e, posteriormente, Cassino.

    3. Quem fundou o Balneário Cassino?

    Antônio Cândido Sequeira é reconhecido como um dos principais idealizadores, mas a criação foi um empreendimento coletivo. A Companhia Carris Urbanos do Rio Grande e a Companhia de Bondes Suburbanos da Mangueira tiveram papel decisivo na implantação, no transporte e na infraestrutura. Por isso, atribuir toda a fundação a uma única pessoa simplifica excessivamente o processo histórico.

    4. Por que o Balneário Cassino tem esse nome?

    O nome está ligado ao Hotel Casino, importante estabelecimento da antiga Villa Sequeira. O hotel oferecia hospedagem, restaurante, concertos, jogos e espaços de convivência. Tornou-se uma referência tão forte que sua denominação passou a identificar o balneário inteiro. Com o tempo, “Casino” foi aportuguesado como “Cassino”, grafia consolidada atualmente.

    5. O Cassino é o balneário mais antigo do Brasil?

    O Cassino é considerado o mais antigo balneário marítimo planejado do Brasil, inaugurado em 1890. Essa formulação é importante porque existiam usos de praias e banhos de mar em outros locais antes disso. O pioneirismo do Cassino está na implantação organizada de uma estação com transporte, hospedagem, casas de banho, lazer e planejamento territorial.

    6. Como as pessoas chegavam ao Cassino antigamente?

    Os primeiros veranistas utilizavam uma ligação ferroviária entre Rio Grande e a estação balnear. O trem transportava passageiros, trabalhadores, mantimentos e materiais necessários ao funcionamento da vila. Dentro da área do balneário, outros meios faziam a aproximação com a praia. A ferrovia foi essencial para vencer a distância e o isolamento da costa.

    7. Como era a Villa Sequeira em 1890?

    A vila possuía infraestrutura avançada para uma estação costeira brasileira do final do século XIX. Havia hotel, restaurante, casas geminadas, chalés particulares, casas de banho, abastecimento de água e vias planejadas. A experiência reunia banhos de mar, refeições, passeios, concertos, jogos e convivência entre famílias durante a temporada.

    8. Por que as pessoas tomavam banho de mar no século XIX?

    Além do lazer, os banhos eram procurados por possíveis benefícios à saúde. A medicina e os costumes do período atribuíam propriedades terapêuticas à água salgada, ao ar marítimo e à mudança de ambiente. Os banhos seguiam convenções específicas de horário, vestuário e comportamento, sendo mais regulamentados do que a ida contemporânea à praia.

    9. Qual foi a importância do Hotel Casino?

    O Hotel Casino foi um centro de hospedagem e sociabilidade da Villa Sequeira. Ele recebia visitantes e promovia refeições, encontros, jogos e atividades culturais. Sua influência foi tão grande que o nome do hotel passou a identificar a localidade. Portanto, o estabelecimento teve importância econômica, social e também toponímica — isto é, na formação do nome Cassino.

    10. O Balneário Cassino sempre pertenceu a Rio Grande?

    O empreendimento foi criado como uma estação balnear vinculada à cidade de Rio Grande. Atualmente, o Cassino integra o primeiro distrito do município e funciona como bairro residencial e destino turístico. Apesar de sua identidade cultural forte e de certa distância em relação ao centro, não constitui um município independente.

    11. O que aconteceu com a ferrovia do Cassino?

    A ferrovia perdeu sua função com a expansão do transporte rodoviário e as mudanças na mobilidade urbana ao longo do século XX. Embora não opere mais como ligação de passageiros até o balneário, sua existência foi determinante para a fundação e o crescimento inicial da localidade. Fotografias, mapas e documentos preservam a memória desse período ferroviário.

    12. Ainda existem construções da época da fundação?

    Parte significativa das estruturas originais foi demolida, substituída ou profundamente alterada. A história, porém, permanece em edificações de diferentes períodos, no traçado urbano, em fotografias, documentos, nomes de vias e memórias familiares. Para identificar remanescentes com precisão, é recomendável consultar inventários patrimoniais e acervos históricos de Rio Grande.

    O Balneário Cassino surgiu da combinação entre inovação nos transportes, interesse empresarial, planejamento urbano e uma nova maneira de perceber o litoral. Inaugurada em 26 de janeiro de 1890, a Villa Sequeira oferecia uma experiência moderna para seu tempo: viagem ferroviária, hospedagem, casas de banho, lazer e convivência diante do oceano.

    A popularidade do Hotel Casino ajudou a transformar o nome da localidade. A antiga estação balnear atravessou crises, mudanças administrativas, expansão imobiliária e novas formas de mobilidade até se consolidar como bairro permanente e destino turístico de Rio Grande.

    Mais do que uma curiosidade, essa trajetória explica por que o Cassino é considerado pioneiro na história do turismo marítimo brasileiro. Conhecer sua origem permite olhar suas avenidas, construções e paisagens não apenas como cenários de verão, mas como parte de um patrimônio cultural iniciado há mais de um século.

    Na próxima visita ao Cassino, percorra a Avenida Rio Grande e a orla imaginando a antiga chegada dos trens, os chalés da Villa Sequeira e os primeiros veranistas diante do oceano. Depois, continue conhecendo a história local em museus, arquivos e conteúdos sobre o patrimônio de Rio Grande.