A ferrovia que ligava Rio Grande à Praia do Cassino

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Entre o fim do século XIX e boa parte do século XX, uma linha férrea ligava o centro de Rio Grande à Praia do Cassino, transportando veranistas até o balneário que hoje é o mais antigo do Brasil. A concessão para explorar esse trajeto foi outorgada em dezembro de 1885, e a Companhia Estrada de Ferro do Rio Grande à Costa do Mar formalizou o serviço em julho de 1890, mesmo ano em que o balneário, então chamado Vila Siqueira, foi oficialmente inaugurado. O trajeto seguia, a grandes traços, o caminho que hoje corresponde à Avenida Rio Grande.

Antes do asfalto e do automóvel dominarem o acesso ao Cassino, era essa ferrovia, e antes dela um bonde puxado por mulas, que fazia a ponte entre a cidade e a praia. Entender essa história ajuda a explicar por que a Avenida Rio Grande tem o traçado que tem hoje, por que o balneário nasceu onde nasceu e como o Cassino deixou de depender de trilhos para se tornar a praia de acesso por carro que se conhece agora.

Como surgiu a ligação ferroviária ao Cassino

O ponto de partida dessa história é 17 de dezembro de 1885, quando a Lei nº 1.551 outorgou à Companhia Carris do Rio Grande a concessão para explorar comercialmente o futuro balneário. A ideia, inspirada em estações de banho e cura europeias como Dieppe, Deauville e Biarritz, previa não apenas hospedagem e lazer à beira-mar, mas também um sistema de transporte que permitisse aos moradores de Rio Grande chegar até lá com regularidade.

Esse sistema veio na forma de uma linha férrea. Em julho de 1890, a Companhia Estrada de Ferro do Rio Grande à Costa do Mar formalizou a exploração do trajeto, no mesmo ano em que o balneário, batizado inicialmente de Vila Siqueira, foi inaugurado oficialmente, em 26 de janeiro. A coincidência de datas não é acaso: a viabilidade do próprio balneário dependia de existir uma forma confiável de levar visitantes até a praia.

Do bonde puxado a mulas ao trem

Nos primeiros tempos do balneário, o transporte entre o início da vila e a praia era feito por um bonde puxado por mulas, conforme registros da época reunidos em obras sobre a memória do Cassino. Esse detalhe costuma surpreender quem imagina que a ligação já nasceu sobre trilhos com locomotiva a vapor: a tração animal antecedeu, ainda que por pouco tempo, o transporte ferroviário propriamente dito.

Com a consolidação da linha férrea, o trajeto passou a ser feito por trem, tornando a viagem entre o centro de Rio Grande e a praia mais rápida e previsível do que a alternativa por estrada de terra, praticamente inexistente ou precária naquele período.

Quem controlava a linha ao longo dos anos

A concessão do trajeto Rio Grande-Cassino trocou de mãos diversas vezes ao longo de poucas décadas, refletindo o padrão comum das ferrovias brasileiras da época, quando concessões de exploração eram compradas, vendidas e renomeadas com frequência:

Ano Empresa responsável
1885 Companhia Carris do Rio Grande (concessão inicial)
1890 Companhia Estrada de Ferro do Rio Grande à Costa do Mar
1892 Companhia Carris e Estrada de Ferro a Estrada do Mar
1895 Companhia Viação Rio-Grandense
1909 Coronel Augusto Cezar Leivas (arrematação em leilão público)

Após o falecimento do Coronel Augusto Cezar Leivas, em 22 de junho de 1926, a administração do empreendimento passou à sua sobrinha, Maria José Leivas Otero, responsável por dar continuidade ao desenvolvimento do balneário nas décadas seguintes.

O trajeto e o que resta dele hoje

Fotografias históricas preservadas por pesquisadores locais mostram o trem da linha Rio Grande-Cassino circulando por um percurso que corresponde, em linhas gerais, ao que hoje é a Avenida Rio Grande, principal via comercial do balneário. Também existem registros de uma antiga estação ferroviária na região de Vila Siqueira, no Cassino, ponto final do trajeto vindo da cidade.

Estação de Vila Siqueira

Isso funciona bem como referência para quem caminha hoje pela Avenida Rio Grande sem saber que aquele mesmo espaço já foi ocupado por trilhos, décadas antes de se tornar a rua de comércio, sorveterias e bancas de artesanato que os veranistas conhecem atualmente.

Por que a ferrovia perdeu espaço

Não há registro amplamente disponível que aponte uma data exata de desativação da linha férrea entre Rio Grande e o Cassino. O que se sabe com mais segurança é o contexto mais amplo: a partir de 1920, o governo federal transferiu para os estados a administração das ferrovias em seus territórios, dando origem, no Rio Grande do Sul, à Viação Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS). Já em 1957, foi criada a Rede Ferroviária Federal (RFFSA), num momento em que o transporte ferroviário brasileiro já enfrentava declínio generalizado.

O problema começa quando esse declínio nacional se cruza com a expansão do modelo rodoviário, que ganhou força sobretudo entre as décadas de 1950 e 1960, período em que estradas asfaltadas passaram a substituir trilhos como principal forma de ligação entre cidades e distritos turísticos em todo o país. O Cassino não escapou dessa tendência: hoje, o acesso entre Rio Grande e a praia é feito por duas rodovias asfaltadas, sem qualquer operação ferroviária remanescente.

 

A imagem registra a chegada de um trem ao Balneário Cassino, já no período em que a Viação Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS) era administrada pelo Governo do Estado, portanto após 1920. Em destaque está a locomotiva nº 86, do tipo American 4-4-0, fabricada em 1908 pela Borsig, na Alemanha. A fotografia é um importante registro da época em que a ferrovia desempenhava papel fundamental no acesso ao mais antigo balneário do Brasil. Fonte: Fototeca Municipal de Rio Grande.

Ferrovia do Cassino x Estrada de Ferro Rio Grande a Bagé

Vale separar duas ferrovias que partiam de Rio Grande e que costumam ser confundidas por quem pesquisa o tema. Uma diferença importante: a linha até o Cassino era um ramal suburbano de curta distância, voltado especificamente ao transporte de veranistas até o balneário, enquanto a Estrada de Ferro Rio Grande a Bagé era uma ferrovia de longa distância, com propósito distinto, ligando o porto de Rio Grande ao interior do estado para escoamento de produção e transporte regional de passageiros.

As duas linhas compartilhavam o ponto de partida na cidade de Rio Grande, mas seguiam propósitos e trajetos completamente diferentes, o que explica por que fotografias antigas da estação ferroviária de Rio Grande aparecem associadas tanto a uma quanto à outra, gerando confusão em pesquisas superficiais sobre o tema.

Registro do trem cruzando a Avenida Rio Grande, no Balneário Cassino, em 1950. Na época, a linha férrea fazia parte da paisagem cotidiana e marcava o ritmo da vida no balneário, passando pelo coração da principal avenida. Um valioso registro histórico preservado pelo Arquivo Papareia.

A ferrovia que ligava Rio Grande à Praia do Cassino não deixou trilhos visíveis para quem caminha hoje pela Avenida Rio Grande, mas deixou o próprio traçado da via, herdeiro direto do caminho que trens e, antes deles, bondes puxados por mulas percorriam para levar os primeiros veranistas até a praia mais antiga do Brasil. É uma história que mistura concessões trocadas, sobrenomes que ainda circulam na memória local e a lenta substituição dos trilhos pelo asfalto, um processo tão comum ao Brasil ferroviário do século XX quanto específico na forma como moldou o balneário que se conhece hoje.

Perguntas frequentes

Quando foi criada a ferrovia entre Rio Grande e a Praia do Cassino?

A concessão inicial para explorar o futuro balneário foi outorgada em dezembro de 1885, mas foi em julho de 1890 que a Companhia Estrada de Ferro do Rio Grande à Costa do Mar formalizou a exploração do trajeto ferroviário, no mesmo ano da inauguração oficial do balneário.

O trajeto era feito só de trem?

Não. Nos primeiros anos do balneário, o transporte era feito por um bonde puxado por mulas, antes da consolidação do transporte sobre trilhos com tração ferroviária propriamente dita.

A ferrovia do Cassino é a mesma que a Estrada de Ferro Rio Grande a Bagé?

Não. São duas ferrovias diferentes que partiam de Rio Grande. A linha para o Cassino era um ramal suburbano voltado ao transporte de veranistas até a praia, enquanto a ferrovia para Bagé era uma linha de longa distância, ligada ao escoamento de produção e ao transporte regional pelo interior do estado.

Quando a ferrovia do Cassino deixou de funcionar?

Não há uma data exata amplamente documentada para o encerramento dessa linha específica. O que se sabe é que ela se enquadra no processo mais amplo de declínio das ferrovias brasileiras a partir da década de 1950, período em que rodovias asfaltadas passaram a substituir os trilhos como principal via de acesso a diversos destinos turísticos do país, incluindo o Cassino.

Existe algum vestígio da ferrovia visível hoje na Praia do Cassino?

Não há estrutura ferroviária remanescente visível em operação ou preservada como atração turística. O principal vestígio é indireto: o traçado da Avenida Rio Grande, que corresponde, em linhas gerais, ao caminho que a antiga linha férrea percorria entre a cidade e a praia.

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