O Hotel El Aduar é uma construção abandonada e parcialmente soterrada pela areia, localizada a cerca de 170 km ao sul do centro do Balneário Cassino, próxima à faixa de dunas que se estende em direção ao Chuí. Erguido no início dos anos 1950 como parte de um projeto ambicioso de loteamento costeiro, o hotel foi abandonado por volta de 1960, vítima da falta de acesso viário e do avanço natural das dunas móveis sobre a estrutura.
Quem pesquisa esse tema geralmente já viu fotos das ruínas nas redes sociais ou ouviu falar da construção “engolida pela areia” e quer entender a história real por trás do mistério. Este texto reúne o que documentos, jornais de época e pesquisa acadêmica confirmam sobre o Hotel El Aduar.
Quando e por que o hotel foi construído
O registro de posse do terreno onde o Hotel El Aduar foi erguido data de 21 de março de 1952, em nome de Pedro Lourival Costa. A construção aconteceu ao longo da década de 1950, em um período de entusiasmo com o potencial turístico da costa gaúcha, quando a região ainda era pouco acessível e atraía tanto brasileiros quanto argentinos em busca de aventura à beira-mar.
Jornais da época documentam o clima de otimismo que envolveu o projeto. Uma matéria do Jornal Rio Grande, publicada em 25 de fevereiro de 1954, defendia investimento no turismo balneário da região, descrevendo o setor como uma “frente inesgotável de riquezas” até então abandonada, e celebrava o que chamava de um grupo de idealistas que acreditava no futuro turístico da cidade. Essa retórica ecoava, décadas depois, o mesmo espírito empreendedor que havia motivado a fundação do próprio Balneário Cassino no final do século XIX.
O projeto de loteamento que nunca se completou
O que poucos sabem é que o Hotel El Aduar não era um empreendimento isolado, mas parte de um projeto de loteamento costeiro extremamente ambicioso. Segundo pesquisa acadêmica de Maria Terezinha Gama Pinheiro, defendida na Universidade Federal de Santa Catarina em 1999, o terreno original tinha área total de 4.416.629 m², dividido em 4.752 lotes distribuídos por 316 quadras planejadas.
Se tivesse sido concluído, o projeto teria se tornado o maior loteamento costeiro da região depois do próprio Balneário Cassino. A ideia por trás da iniciativa era, na prática, replicar ao longo da costa o modelo de balneário planejado que havia dado certo décadas antes, criando uma sequência de praias com nomes e identidades próprias ao longo da linha litorânea, como se fosse possível simplesmente traçar divisões na areia. O problema é que esse modelo, eficaz em praias de enseada mais protegidas, não se sustentava diante da dinâmica de dunas móveis e da exposição direta ao oceano aberto característica dessa parte do litoral gaúcho.
Por que o hotel foi abandonado
A combinação de fatores que selou o destino do El Aduar ficou clara ao longo da década seguinte à sua inauguração. Por volta de 1960, a Estrada do Taim, hoje uma das principais vias de acesso à região, ainda não existia, o que tornava o deslocamento até o hotel extremamente difícil, restringindo o público que conseguia efetivamente chegar até lá.
Sem fluxo constante de hóspedes e sem consolidação fundiária adequada do entorno, o empreendimento não resistiu. Cerca de uma década após a inauguração, o Hotel El Aduar foi abandonado, e a partir daí a natureza retomou o espaço: as dunas móveis da região, que se deslocam continuamente por ação do vento, começaram a cobrir progressivamente a estrutura, processo que segue em curso até os dias atuais.
A confusão de nome no Google Maps
Um detalhe curioso, e que gera confusão para quem tenta localizar o ponto por conta própria, é que o Hotel El Aduar aparece identificado no Google Maps sob outro nome, “Hotel Netuno”, uma imprecisão que se popularizou ao longo do tempo, mas que não corresponde à identidade histórica documentada da construção. Pesquisas mais aprofundadas em registros de posse e em documentos de época confirmam o nome El Aduar como o correto, associado ao registro de 1952.
Esse tipo de imprecisão é comum em construções abandonadas com décadas de existência e pouca documentação oficial acessível ao público, o que reforça a importância de fontes de pesquisa como dissertações acadêmicas e registros de posse para reconstituir a história real do local.
O estado atual das ruínas
A deterioração do Hotel El Aduar tem se acelerado nos últimos anos. Comparações entre registros fotográficos de diferentes períodos mostram que a estrutura visível hoje é significativamente menor do que a registrada há cerca de cinco anos, evidenciando o ritmo acelerado com que a areia e as condições climáticas da região seguem consumindo o que restou da construção.
Ainda assim, as ruínas se tornaram um ponto de interesse para turistas e moradores da região, funcionando como um destino de exploração que mistura aventura, história e contemplação da força da natureza sobre construções humanas. O fenômeno não é exclusivo do Cassino: outras construções abandonadas pelo Brasil, como o chamado “Hotel Esqueleto” na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, e o Ariaú Amazon Towers, em Manaus, seguem trajetória parecida, transformando o fracasso original do empreendimento em atrativo turístico décadas depois.
O Hotel El Aduar é mais do que uma curiosidade fotogênica na Praia do Cassino: é um registro físico de como a ambição imobiliária do século XX subestimou a força da dinâmica costeira do extremo sul do Brasil. O projeto que sonhava em criar o maior loteamento litorâneo da região depois do próprio Cassino terminou soterrado pela mesma areia que deveria sustentar seu sucesso turístico. Para quem visita hoje, resta uma lição sobre planejamento e convivência com a natureza que segue relevante, num litoral onde novos empreendimentos continuam avançando sobre a linha de dunas décadas depois do fracasso do El Aduar.
Perguntas frequentes
Onde ficam as ruínas do Hotel El Aduar?
Ficam a cerca de 170 km ao sul do centro do Balneário Cassino, em uma área de dunas na direção do Chuí, próxima ao trajeto da Estrada do Taim.
Quando o Hotel El Aduar foi construído?
O registro de posse do terreno é de 21 de março de 1952, e a construção aconteceu ao longo da década de 1950, período de forte expectativa em torno do turismo balneário na região.
Por que o Hotel El Aduar foi abandonado?
Principalmente pela falta de acesso viário adequado, já que a Estrada do Taim ainda não existia por volta de 1960, e pelo avanço natural das dunas móveis, que progressivamente cobriram a estrutura ao longo das décadas seguintes.
O nome “Hotel Netuno” está correto?
Não. Essa é uma identificação popularizada em plataformas como o Google Maps, mas o nome historicamente documentado, confirmado por registros de posse e pesquisa acadêmica, é Hotel El Aduar.
É seguro visitar as ruínas do Hotel El Aduar hoje?
A deterioração da estrutura tem se acelerado nos últimos anos, o que exige cautela ao explorar o local. Como fica em um trecho remoto da praia, distante do centro do balneário, vale se informar sobre condições de acesso e segurança antes de planejar a visita.

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